quarta-feira, 7 de julho de 2010

Reedição da Entrevista histórica com Pakkatto

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Pakkatto é sem dúvidas uma das figuras artísticas mais interessantes de São Gonçalo. O tavernista é músico, poeta, escritor, DJ e grande conhecedor da arte no geral. No dia 09 de julho, mais uma vez o multi-artista, carinhosamente apelidado por Romulo Narducci de "O Trovador Tavernista" irá se apresentar no Uma Noite na Taverna e a partir de agosto, mês em que o evento homenageará a Sociedade Epicuréia, irá passar a protagonizar como poeta residente.
A idéia era entrevistá-lo novamente para o Manifesto Tavernista. Mas como a versão anterior desse nosso blog foi invadida e apagada por hackers (fato que nos deu uma baita dor de cabaça, pois tivemos que recomeçar do zero), foi-se embora também muitas matérias importantes, inclusive a entrevista com o Pakkatto, feita pelo tavernista Romulo Narducci em sua antiga residência, em agosto de 2009. Porém, por sorte, os arquivos da entrevista estavam guardados e achamos importante voltar a registrar essa conversa maravilhosa com o nosso trovador tavernista.

ENTREVISTA COM PAKKATTO


Entrevista realizada por Romulo Narducci em agosto de 2009.

Como o Henrique Santos tornou-se o Pakkatto?

- Bem, Pakkatto como poeta, só surgiu para adequar o apelido ao que eu já fazia desde os quinze anos, quatorze anos e tal. Eu nunca comecei lendo poesia. Comecei lendo prosa mesmo, fazendo prosa. Fazendo prosa, fazendo coisas em cima de ficção científica mesmo. Isso eu escrevia desde muito cedo. Fazia aventuras, tipo saga, tinha essa literatura de quadrinhos, uma coisa maneira que desde cedo eu tive a coisa de ler muita prosa. Machado, pô... devorava Machado, era o meu escritor preferido. E quando eu li pela primeira vez o Fernando Pessoa, aí é que a porta se abriu, assim. Porra, Pessoa foi o cara que eu li de cara!

Foi o momento em que se introduziu a poesia?

- É. Eu comecei lendo Fernando Pessoa. Porque o heterônimo... o mais racional... é o Álvaro de Campos, né? Aí eu comecei logo por esse cara. Pô, esse cara que foi... porque o que acontece, eu já tinha uma formação voltada para a matemática, física, ciências exatas, e tinha sempre interesse por filosofia, que fazia parte da minha leitura também. E calhou de eu estar lendo na época, por curiosidade mesmo, porque um autor vai citando o outro, aí comecei a ler Hegel que falava do Kant, lia Kant porque o cara falou, não entendia porra nenhuma, só lia.

E daí ia buscando as referências?

- É. Tinha aquela coisa que, pô - isso é uma coisa engraçada - que o Manuel Bandeira falava: se alguém escreve versos e não te mostra, é por vaidade. Se ele mostra, também é por vaidade. Então eu fazia versos naquela de sacanagem, mesmo. Tipo, tinha facilidade de fazer rima, na verdade sempre escrevi com rima, coisa para impressionar garota, como qualquer adolescente fazia.


Restaurante do SESC, Taverna de Junho de 2004.
É assim que nós sempre começamos, não é? (risos)
- É, pô, fazia um soneto... pá, caraca! Só que aquilo não me... Eu achava maneiro fazer um poema para impressionar a menininha, pra sei lá, conquistar a menininha, fazer ela sorrir, mas achava legal também falar o que eu pensava, o que eu sentia. E quando bateu o Pessoa, eu falei “caraca, maneiro!” O cara tem um questionamento, como questionar o mundo e fazer um verso. Que é uma parada extremamente pessoal e que repercute. Dá uma ressonância, que é uma coisa que eu tenho, é assim, em toda essa minha loucura eu tenho esse conceito de ressonância, assim, quando você pensa numa banda, quando você pensa que aquilo bate em você, pode ser até estranho, pode ser um heavy metal, pode ser um samba, pode ser um pagode, pode ser funk, pode ser que porra for, se ressoar, se passar uma mensagem e se você parar um segundo que seja e o cara falar: caraca, o cara sentiu a mesma parada que eu senti! Ter o mesmo questionamento que eu e você, naquela hora você não está sozinho. Naquela hora, er... volta naquilo que eu falei da filosofia que é aquela coisa que ninguém explica você como ser humano.
A arte tem dessas coisas.
- Exatamente. É a arte que, pô, separa a gente dos outros animais. Não é outra coisa, assim. É a razão? É, mas não é só isso. É a arte que vai fazer você criar a partir das suas experiências. É quando você sente o mundo, que você transforma e colocar em formas e tal. Eu comecei escrevendo... fui escrevendo e tal, migrei para poesia, comecei a escrever coisas que eram até cópias na verdade, meio que...
A poesia veio com quantos anos, mais ou menos?
- Eu tinha uns 15 ou 16 anos. Daí, junto com isso, tinha a coisa musical. Muito engraçado, gostava da música e da literatura. Eu lia ficção científica, quadrinhos, aos 15 anos. A ficção científica e quadrinhos eu já até estava parando de ler, porque eu já via desde os 8 anos, véio, porque de Mônica eu passei para a Marvel, eu li a saga de Thor toda e tal. Daí, pô, música: Titãs! Arnaldo Antunes é um cara que eu gosto pra caralho! Porque eu já ouvia Arnaldo Antunes desde a época dos Titãs. É foda, tem o disco "O Blesq Blom", e eu já começava a escrever ali coisas que eram versões na verdade daquilo que eu tinha visto. Fazia várias versões de músicas, coisas que eram até quase um plágio cara (risos), eu não me sentia nem muito bem com aquilo. Daí eu ficava pensando, como é que eu vou fazer? Já cheguei até - esse caderno eu não encontrei de novo -, mas acho que por influência dessa coisa muito nacional, tentar calçar uma parada organizada, esquematizada, eu sempre pensei nessa coisa: eu tenho que, pô, er... olhar de fora, tentar entender o que eu estou fazendo. Você sabe que tudo é balela, daí eu descobri, quando eu comecei a ler poesia, descobri duas pessoas que se tornaram dois mestres, assim, em termos de escrita. O primeiro, eu tive uma grata surpresa, foi o que me libertou, foi o Mário Quintana. Achei essa parada de fazer poesia simples, foda! E Manuel Bandeira. Manuel Bandeira tem poesias do caralho! Os escritos dele sobre arte são espetaculares, tem uma erudição fodida, mas ao mesmo tempo quando ele escreve, ele se considera um poeta menos. Ela fala assim: “na boa, eu só consigo falar isso, né... eu posso saber, eu posso...” Daí, eu me identifiquei com isso também.

Com o poeta Romulo Narducci, poesia musicada por Pakkatto. (junho 2004)

Ele transmite sua poesia de uma forma bem simples, né?

- Mais simples, é uma coisa mais direta. Sem muita complexidade. Daí, eu encontrei depois Drummond, aí foi a síntese daquilo que eu queria. Podia abandonar a rima. Eu podia voltar na rima. Aí, os dois grandes mestres que quando eu conheci passei a escrever bastante, fiz os meus dois cadernos de poesia... foram Drummond, mesmo. Eu tenho até vários poemas de política literária, consumo imediato, são referências caras ao Drummond. Tenho um poema que eu fiz, “Alguns Poemas de Um Poema Lutador”, que são uma homenagem ao Drummond explicitamente. Quando eu fiz esse poema, eu estava influenciado por ele fortemente, li “Rosa do Povo”, “Antologia”, e li também aquele poeta da Paraíba, que escreveu “Eu”, o Augusto dos Anjos. Que também volta naquela para da que eu falei.

E projetos? Algum projeto para escrever um livro de poesia, ou de conto? Já tem algo no forno? Eu sei que você tem bastantes materiais.

- Bom, a maior parte do material está disponível – o que eu fiz mais nessa fase entre os quinze e os vinte e cinco, eu escrevi bastante, eu tive morando em São Paulo, e nesse período, dessa fase, eu tenho publicado num domínio que eu tenho da Geocities, que eu até vou colocar no meu blog. Mas algumas coisas novas que eu também fiz estão no blog. Quando eu comecei escrevendo assim mais sério e tal, eu logo pensei em sagas, né, aquela coisa mais temática, que era automático. Isso foi se perdendo porque eu começava a fazer realmente poesia quando eu me tocava e depois eu escrevia. Não pensei sinceramente em organizar nada num livro, embora até queira e tal mas eu ainda penso em amadurecer alguma coisa, er... nesse sentido, durante muito tempo também eu estava voltando pra fazer música. Música minha.

Opa, vamos chegar lá! (risos)

É, coisa, que... coisa que eu não deixei num ponto de maturação que eu queria, mas não abandonei a escrita, mas essa coisa que eu tinha antes de organizar essas coisas em livros... eu tinha mais livros, eu tinha, eram na verdade uns três livros. Um era o "Poemas Desconexos", o outro era o "Boas Razões para o Suicídio", que acabou só ficando a música e o outro livro... deixa eu ver se me lembro... foi logo no início, que era... sei lá, era um outro livro, eu não me lembro mesmo, é coisa bem antiga, bem antiga.que era sobre o tempo, eram poemas sobre o tempo. Faz parte dos meus poemas perdidos. Se eu ficar famoso e morrer um dia quem achar esse livro vai ficar milionário (risos). Mas pô, minha mulher deve ter guardado ou queimado isso, não sei. Er... tem esses poemas perdidos aí que, eu boto... é o Tempo, Boas Razões Para o Suicídio e Poemas Desconexos. Hoje em dia, na verdade eu estou até mais preocupado em dar vazão mesmo aos contos que recentemente até republiquei, tem as Histórias Cariocas, foi meu último post aí, no meu blog abandonado (risos).

Qual o endereço do seu blog?

- [ http://www.pakkatto.blogspot.com/ ] É só botar Pakkatto no Google, mas ninguém... É Pakkatto com dois K e dois T! Pakkatto é apelido!

Como surgiu esse apelido?

- Veio de faculdade, né! Apelido é aquela coisa que você tem que botar na cabeça, que apelido quando você gosta, não pega. Então, Pakkatto é aquele apelido que eu tava recusando e tal... e teve uma porra, uma palhaçada lá de He-Man, aí me escolheram para ser o Pakkatto, aí fudeu! (risos) Aí tive que ficar com esse apelido de Pakkatto. Eu falei assim: cara quer ver, eu vou capitalizar esse negócio. O pessoal já me conhecia por Pakkatto, a banda do Pakkatto... Quando eu toquei pela primeira vez eu, quando eu toquei eu já estava aqui no Rio, eu já tava fazendo música, assim, quando eu vim em 96. Então eu já tava querendo aprendera a tocar violão e tal, até hoje eu não aprendi , mas eu continuo fazendo. Eu sigo aquela máxima da música dos Titãs que “Eu não sei fazer música, mas eu faço! Eu não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto! Eu não tenho certeza, mas eu acho!” Então eu vou lá, caio dentro e vou fazendo. Então eu fiqui conhecido e tal... “Pô, o Pakkatto toca violão, toca as músicas dele...” E as música que eram... pô, as músicas também estão lá no meu site pessoal e tal, tem o link lá, que tem o Geocities... Vai acabar até o Geocities, né? Mas ta lá, essas músicas eu fiz nesse tempo. Mas pra cá, eu fiz a Playmobill Killers e tal, sempre a mesma coisa, por Pakkatto, aí tal. Teve até um papo bem no começo da Taverna que era de montar a Pakkatto e os Caramurus e tal (risos). Essa parada do Pakkatto ficou forte, mesmo, assim, não teve jeito, tem muita gente que se ouvir falar Henrique, também conhece,Eu até faço questão de botar Henrique Santos...tem que tirar o Silva, não é para criar nenhuma desavença com o Lula, não (risos). Não é para dizer que eu sou parente do Rodrigo, porque cunhado não é parente (risos). Mas é, pô, sempre... do ponto que eu até parti - a gente já teve essa conversa antes -, eu escrevo é mais para ser lido, mesmo. É para despertar na hora em que o cara quer, uma reflexão em cima daquilo que está sendo ouvido, que se ressoa. Então eu não estou pensando em – voltando á sua pergunta – em fazer um livro agora.


Pra você isso soa muito comercial?

- Não, não, ainda não tá valendo a pena, assim, quando tiver uma coisa que eu sentir assim, pô, agora eu vou. Não é nem... pegando muita coisa que eu escrevi, que eu gosto de vários poemas. Tem poemas que eu gosto de graça, que eu acho que nem terminei na verdade. Tem o “I, I, Sir” que é um poema que eu fiz para um amigo meu em cima do post de um blog, eu fiz um poema, assim, escrevi um negócio que achei lindo. Que é... como é que é? “Alguns homens só viajam, algumas...” agora eu não lembro direito, mas é um poema que eu adoro! E eu acho que ainda nem terminei, entendeu? É um poema que está lá e tal, mas as vezes está terminado. Eu gosto muito desse poema, eu gosto muito do poema que eu fiz que eu te ganhei uma... que é um poema que eu fiz quando tinha dezessete anos, ou dezesseis anos. Que alguns poemas... tem o poema O Lutador que é uma homenagem ao Carlos Drummond. Já recitei ele várias vezes na Taverna, er... tem um que recentemente li e me surpreendi, porque achei ótimo, que é... até postei no A Corja*, que é um poema que tem uns cinco anos de idade que é um... É uma oração na verdade, é o “Estrela da Manhã”. Acho aquele poema, porra, maneiro, assim... porque é uma coisa engraçada de como eu escrevo, tem alguns poemas da minha fase madura que são depois dessa coisa de ter escrito muito, assim, escrevia, eu escrevo todo dia! Já joguei muita coisa fora, tem uma coisa que aconteceu...

Que pecado, rapaz... Jogar poesia fora!

- Mas pois é, eu tinha essa mania, que depois eu me arrependi, é claro! Eu peguei muita parada e queimei mesmo! Queimei, cara! Queimei! “Cara não gostei, vou queimar!” Queimei mesmo! Outros a minha mulher rasgou! (risos)

Não vou nem perguntar o porquê, tá?

- Pois é, eu quis matá-la! (risos) Mas, tudo bem! Com essa fase do rasgado eu, porra, achava que aquilo ali não era mais representativo. Tinha muita coisa que eu tinha uns 15 anos. Mas eu guardei várias paradas! Tem várias coisas que, por exemplo: “Minha inconstância / Sofro e sorrio confuso em um lado / Ei, de encontrar minha inconstância / Sorrimos ou sofremos / Nós somos exatos / Vejo repetir-se minha infância / Minha consciência desnuda em atos...” E por aí! Eu escrevi isso, porra, não tinha nem idade. Eu fui recitar e, pô, estava lá guardado! Que é uma coisa também, é uma garrafa que você joga para você mesmo depois. Que se escreve, aí quando você lê de novo, você fala: “Caraca, eu tenho salvação! Pô, eu acredito em mim mesmo!” Tipo assim: “Eu já pensei isso aqui!” É uma forma de manter a coesão, né? Porque dizem, né, que a gente se renova, que o cérebro se renova e tal, e que pouca coisa fica. Das emoções, do relacionamento, da vida e de nós mesmos... Isso é mais complicado, porque a gente muda de idéia, a gente muda de lugar, de vida, de pensamento... Pô, um dia eu... tipo: “hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou.” Então, porra, quando você olha para um texto teu, a gente nem se reconhece mais, não é? Essa ponte que você faz consigo próprio, ela não tem valor, cara! Porra, ela é inestimável! Assim, você recupera quem você é naquele momento em que você vai lá! Às vezes você nem consegue ir lá e você vê que isso te dá uma dimensão absurda do que é o ser humano mesmo. Do que são os outros, né? Você diz assim: “Caraca, bicho! Porra, quem eu era naquela época? O que é que eu estava pensando?” Não que aquilo valia ou que não vale mais. Isso nem interessa mais. Parece que você tem lá um retrato teu que você pode ir buscar, um retrato sentimental, um retrato intenso que naquela hora você nem achou tão legal assim.


Uma Noite na Taverna, setembro de 2004.

A poesia tem essa vantagem porque ela mostra realmente as metamorfoses que nós sofremos, a poesia vai retratar os períodos de cada um que a escreve, períodos de vivência e de influências também, não é?

- Exato! Você falou tudo! Influência é tudo! Quando eu comecei a escrever mais maduro e estava escrevendo coisas até mais introspectivas e até depressivas... É aquela coisa que até o Rodrigo me intitulou como o “guerreiro covarde”, aquele cara que está com a espada na mão, não sei o quê, mas tem pena de decepar a cabeça do inimigo. Sabendo que o cara é inimigo, né? Eu não encaro muito assim não, eu até estava refletindo sobre isso recentemente. Que, pô... não é muito isso! Faz parte das minhas influências. Quando eu ouço o Pink Floyd, e hoje eu tenho uma dimensão até maior de música, mesmo, quando eu ouço uma música eu quero saber o que o cara está falando. Eu ouço, por exemplo, Queens Of The Stone Age, ouço o poema “Go With the Flow” – eu até fiz uma versão dessa música –, eu... cara, que poema espetacular! Eu fico procurando os poemas. Se eu ouvir um negócio em aramaico e não sei o quê, e fico querendo saber o que o maluco está cantando, caramba! (risos) E vou lá ver e é um poema maravilhoso, sabe? Aí eu quero o quê? Aí eu quero fazer isso com o meu poema. Eu quero dar musicalidade de modo de que o cara quando me ouvir declamando, sei lá... porque essa é que é a parada! O cara vai me ouvir e vai falar: “Caraca, o que é que esse maluco está falando? Porque eu gostei da melodia!” Porque, também comunica. É aquela coisa da ressonância. Pô, quando tudo casa, porra, é perfeito! É o disco Ten, do Pear Jam! É o Sargent Peppers, um Revolver dos Beatles – Beatles tem várias ondas -, é um Pink Floyd, com o Dark Side [Dark Side Of The Moon]... É isso que eu estou buscando, com esse grau de excelência. Eu estou querendo esse grau de excelência para poder comunicar as pessoas tudo o que eu quero comunicar, em todos os aspectos. O cara chegar e... o ideal é ele nem entender o que está se passando. Ele pode nem entender, mas ele vai sentir alguma coisa. E nessa eu vou pegar ele.

De repente a pessoa vai entender até depois.

- Exatamente, é isso que eu quero! Quero que ele se debruce sobre o poema. Eu não quero dar um poema fácil. Essa é que é a parada. Aí, volta naquela coisa que eu gostava no início, a questão do resgate. Porque, a complexidade que eu achava boa depois foi destruída com Mário Quintana. Na verdade eu descobri que Mário Quintana é mais complexo do que eu imaginava. De uma forma sutil, uma forma lírica, bonita, assim. É você poder comunicar, criar tanto estranheza, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer por causa daquela coisa do protesto mesmo, aquela herança Punk, que eu acho que é o punch do Rock mesmo, que é fazer as pessoas pararem para vibrar e para mudar. Mas não só isso, mas como também aquela coisa da tristeza introspectiva que rola, cara. Todo mundo com um sonho novo e diferente é derrotado em cada esquina, em cada vez que ele liga no Jornal Nacional. Porra! Me dá uma coisa... Porra, eu sei que é legal ir para a Praça Celestial enfrentar tanque, mas eu sei que o cara que enfrentou o tanque morreu, velho! É complicado! Você controlar as pessoas ao suicídio coletivo, contra o sistema. Então, eu estou fazendo como Drummond falava. Eu estou igual a um verme, eu estou comendo o sistema por dentro! Eu estou aqui e tal, beleza, trabalhando... mas eu não concordo e quero que as pessoas vão acordando, porque sozinho não dá! Isso aí, não tem como. Então o meu papel é meio assim que eu... é de não deixar a chama morrer dentro de mim, é a chama que eu tenho desde os 15 anos na época do mesmo cara que escrevia ficção científica. Então, porra, se eu não acho certo eu não vou assinar embaixo. Eu não quero criar muvuca e não vou criar ninguém pra fazer isso. E pô, ao mesmo tempo dá tristeza de saber que passou tanto tempo desde que eu tinha 15 anos, cada vez o tempo vai passando mais e as coisas vão ficando cada vez mais difíceis. As pessoas vão ficando mais alienadas! É bunda music! É poeta pasteurizado! É filósofo da moda! É livro de auto-ajuda alçado a Best seller! Sabe, é complicado!


Uma Noite na Taverna, fevereiro de 2006 (Jardim da FASG)

E falando um pouco de música, já que tocamos várias vezes no assunto, como veio a música na sua vida?

Então, música é o seguinte, música eu sempre ouvi! Inicialmente eu não tinha nada definido e achei sempre legal que os meus amigos trazem coisas, assim... Grandes amigos meus, me influenciaram porque... não porque eles gostavam da mesma coisa que eu ouvia, mas porque eles ouviam coisas diferentes do que eu ouvia. Não por aquela busca do novo, mas é porque eu queria realmente entender e sempre tive essa curiosidade de saber sobre coisas diferentes. Então, pô, o meu primo ouvia Pink Floyd, que eu comecei a ouvir e tal... depois de muito tempo comecei a ouvir Beatles e música brasileira. E com a música foi engraçado, porque eu comecei a fazer música porque eu não queria estragar a música de ninguém. Então eu falei assim: “Vou fazer! Como eu toco mal e não preciso dos outros eu vou tocar as minhas músicas!” Minha irmã tocava violão, era quase autodidata, tinha alguém que ensinava a ela, até em função de igreja, e tal, ela tocava na igreja. Ela tinha um violão em casa daqueles Tonante com corda de aço! Era cinza, lindo! Ele tinha um som estridente, então até hoje eu, pô, tenho esse defeito de tocar para os amigos... errr... se você me der um violão eu vou tirar dele o som mais alto que ele tiver! Vou espancar a corda! Isso aí eu tenho que perder até um pouco, dizem os meus colegas músicos de que eu vou ter que perder essa tara de espancar a corda do violão. Então, é herança do Tonante, do maldito Tonante que abriu as portas da música para mim. Então, pô... eu tocava Soundgarden, versão de Rage Against Machine e tal, daí eu falei assim: “Vou fazer minha música.” Até fiz uma versão, a primeira versão que eu fiz na minha vida foi uma versão de Death Metal, assim, pô, uma parada PÁ! Na verdade nem era tão Death Metal, era Heavy Metal mesmo, eu fiz uma versão de Orgasmatron. Aí botei minha... que é aquela coisa que eu falei que não tinha... sempre partiu de uma coisa que eu fazendo parecia meio plágio, então eu fazia uma versão minha e encaixava uma coisa que eu falava, então eu... “Espera aí, vou adequar o que eu estou falando ao que eu estou tocando.” E foram surgindo várias coisas. Eu tenho várias músicas que eu coloquei como a Playmobyll Killers que eu fiz desde a época que eu comecei a tocar, assim, era Heavy Metal “Tcharammmmmm!” Aquela barulheira e tal. O que aconteceu? Eu descobri mais um maluco que mudou a minha concepção de fazer as paradas, que foi o Caetano Veloso. Porra, sempre que eu tenho a chance eu falo: “Porra, compra o disco Livros!” É espetacular! Que é alguma coisa que ele fez... a música “Livros” é interessante... “Tropeçava pelos astros desastrados / Quase não tínhamos livros em casa / E a cidade não tinha livraria / Mas os livros que à nossa vida entraram / Eram como a redenção do corpo negro / Apontando para a expansão do universo...” Pô, porque a frase e o enredo e o verso, a prosa e o verso, sem dúvida e sobretudo o verso: “É o que pode criar mundos no mundo...” Pô, isso aí resume! Gosto do disco para caraca! É aquela coisa da ressonância que a gente volta a falar. É a minha tese fundamental, assim, é a ressonância. E o cara falou tudo o que eu queria falar num todo. E aí fechou! Eu falei: “Caraca, eu vou fazer isso também!” Eu tenho música de protesto, errr... porra, a famigerada “Edir Perverso” que mostra todo o meu ódio contra o pecado mortal da simonia que apela às coisas sagradas...

Você tocou no palco livre do Aldeia Rock Festiva IX, certo? (Evento acontecido na Semana Santa de 2009)

- Toda vez que eu tenho chance de tocar eu toco com o maior prazer do mundo!

É a sua vertente punk, né?

- Exatamente, eu tenho que dizer isso, esse cara é um filho-da-puta! (risos) Eu tenho que falar! Tenho que apontar o dedo, sabe? Tocar e coisa e tal. Eu tenho que apontar pelo menos o dedo pro tanque, assim! Mas é só para deixar claro que eu não estou ali para fazer coro com esse tipo de coisa.

E a música Boas Razões Para o Suicídio, você chegou a dizer que era uma poesia...

- Era uma poesia que eu musiquei. Ela nasceu como poesia. Como também aquela música, como foi também... tem algumas que foram feitas na mesma noite... eu fiz “Cine” e na mesma noite, que eu estava insone, eu fiz... errr... errr... rapaz esqueci o nome da música! Ah, depois a gente lembra!


Taverna, Centro Cultural Joaquim Lavoura (fevereiro de 2007)

O vinho já chegou pela metade! (risos)

- Não, eu sempre esqueço mesmo! Como eu ia falando, a música é até um exercício de eu ficar lembrando as coisas que eu escrevo. Tem músicas que eu escrevi que eu até nem gravei, que eu compus mais recentemente, por exemplo. Eu compus uma música que falava da minha vontade de fazer protesto: “Se o país é uma bagunça / Toma parte nessa dança / Roubam doce de criança / Vão tomar seu capital / Brasileiro dou meu jeito / E não olho pro Palácio / Se me querem de palhaço / Vão me ter no Carnaval / Cantando samba de protesto / Disfarçado de alegria / Pois não há democracia / No país do futebol...” E aí vai... É mais para expressar mesmo aquela coisa da revolta. Então a canção de protesto é o que norteia assim... o que eu fiz. Mas voltando ao Caetano Veloso, é a coisa da Bossa, mesmo. Então, eu fiz várias Bossas.

Isso suavizou mais a sua face Heavy Metal?

- Na verdade, não é nem isso. As coisas caminham juntas, mesmo. Na verdade a gente soma, não tem essa coisa. A gente tem um momento lírico e um momento mais pesado. E não tinha como fazer aquela coisa romântica no esquema Heavy Metal. Eu não conseguia fazer um “For The love Of God”, do Stevie Vai. Eu não conseguia fazer um Joe Satriani. Eu até busco isso, estou buscando isso. Mas eu não tinha nem esse equipamento, nem nada disso. Então a Bossa, a música brasileira, pô, estava isso rolando muito forte em mim, eu andava ouvindo – olha novamente a referência – Caetano, porra, eu fui até ao show do Caetano! Fui no Circo Voador, fui no show “O Estrangeiro”. Porra, genial! O que o cara faz, não tem preço! Tem também a Adriana Calcanhoto, gosto pra caramba! Comprei os discos dela direto, assim, gosto muito da poesia dela, até porque ela diz isso também... eu roubei essa frase dela que eu acho perfeita, que é “eu toco as minhas músicas para não estragar as músicas de ninguém”. É minha, se você não gostou, tudo bem, cara!

Eu tinha que falar... Agora, saindo um pouco da posição de entrevistador e ficando mais íntimo do entrevistado (risos), me lembrei daquela noite, o embrionário do Uma Noite na Taverna, que você chegou com um violão e uma garrafa de Balla [Ballantines] , você pegou um poema meu chamado “Antipoema” e musicou. Aquela noite foi foda!

- Aquele poema... a música já estava nele já, eu já tinha aquela música, o meu parceiro de violão se amarrou na música, pô, aquele poema é espetacular! Foi um excelente encontro aquele. É isso que eu acho maneiro... voltamos à ressonância! A gente estava ali preocupado se ia dar gente e tal [sobre a primeira taverna], mas na verdade a gente não estava preocupado. A gente queria fazer!


Aldeia Rock Festival VII, Aldeia Velha - RJ, abril de 2007.

Quando acabou o uísque veio o Rodrigo com aquela cachaça curtida em passas (risos)!

- Putz! Aquilo... aquilo é que eu acho que não prestou muito, eu fiquei meio desarranjado do estômago! (risos) Mas valeu à pena!

(risos) Mas isso é que é bacana, o lance da música, ela simplesmente flui.

- Na verdade, como eu falei, aquela música eu já tinha. Ela só estava precisando de um dono e foi um encontro perfeito. Eu já tinha aquela... aquele riff. E eu estou procurando muito isso, por exemplo, agora, eu tenho escrito... eu escrevi recentemente outra prosa. Mas é uma coisa até mais cômica. Eu gosto muito do Luis Fernando Veríssimo e tal, sei lá, veio o interesse de reescrever as estórias da Bíblia. Mas voltando ao ponto aqui, ao ponto da música, é que eu não abandonei nada da música, o que eu tenho composto - que até deixei no meu espaço da Trama, tem no meu Myspace – de eletrônico, eu procuro até uma coisa mais louca, tipo uma Rave. Eu fiz uma música que é de Rave, que é a “Time Machine”, pô... expressamente só tem duas frases na música que é “Welcome to the time machine / Enter to the time machine”. Tem até uma pausa que é um lance de propósito pro cara realmente sentir que tem um baque do tempo. Então, é aquela coisa: comunicar sempre! Pô, “Enter to the time machine” e o cara assim: “A máquina do tempo, a máquina do tempo... o que é essa máquina do tempo?” Aquela música frenética [faz com a boca som de batida de música techno] e de repente: “ENTER TO THE TIME MACHINE!... WELCOME...” Pô, bem vindo à máquina do tempo! Entre na máquina do tempo... E vamos embora! Você se destruindo lá de dançar!

Falando nisso, e o DJ Pakkatto?

- É, DJ Pakkatto! Teve até essa fase também! Recentemente a Nicole [produtora da festa JuiceBox em Niterói] até falou comigo. Aí, eu pô... tal... fiz meio um cu doce pra ela... (risos) e depois me ofereci. Aí, eu me ofereci de novo pra ela, não em sentido duplo, mas me ofereci para tocar de novo lá.

Discotecar é bom, né?

- Pô, discotecar é ótimo cara! Acho que a melhor coisa que tem é você comunicar. E você pode se valer... isso que eu tenho é um prazer de comunicar através até de outras pessoas. Então eu ouço por exemplo, “Go With the Flow” [da banda Queens Of Stone Age]: “She said I throw myself away…” “Ela disse que eu me joguei fora / Eram apenas fotos depois de tudo / Eu posso fazer você se segurar / Eu posso te lavar da minha pele...” Pô caraca! O que esses caras fazem, pô, eu tenho que botar isso, eu vou tocar e eu quero ver nego dançando isso! Eu nem sei se o pessoal vai entender, né? Tipo, um professor meu falou assim: “Cuidado rapaz, não jogue palavras ao vento porque, sei lá, o cara bota uma camiseta hoje em dia escrito Fuck me Forever e tá feliz pra caramba!” Mas pra mim, foda-se! Se o cara entender, pra mim está ótimo!


Centro Cultural Joaquim Lavoura, Taverna de outubro de 2007.

Às vezes as pessoas entendem sem entenderem, parece que é por osmose, não é?

É, alguém... cara, não é todo mundo. Eu não tenho essa coisa... Eu não tenho esse negócio de “oh, o messias!” Eu até já pensei nisso. No meu poema “Estrela da Manhã” eu falo isso. Você também tem poesias assim, porra! Eu falo isso em vários poemas, do poema... que até são dois poemas (eu tenho essa coisa da série, de um poema que joga no outro poemas e joga no outro poema... quando tiver bem organizadinho eu posso até fazer um livro), são dois poemas que são para sexta-feira, então assim... o meu primeiro poema fala da coisa de ver o mundo, aí eu estou caminhando na Av. Presidente Vargas, que tem um nome que é baseado num nome. E no outro poema eu já estou andando no meio do Largo da Carioca, vendo os caras que estão pregando e tal. E essa é uma coisa que eu acho legal. [PAUSA PARA COMER] (risos) O que acontece... (mais risos) Eu falo tanto que até perco o fio da meada! Essa ponte assim, da comunicação, quando você acha que você é o messias e sobe no banco da praça, a gente faz isso muito na Taverna. Sobe lá e não é fácil ler um poema assim. Eu até no início ficava meio bolado. “Como é que fulano não leu o poema direito?” Bom, é uma experiência legal pro cara também, entendeu? Porque, porra, na hora que ele vai ler, aí que ele vê que, porra, tem também esse canal que é de você declamar poesias. E se você parar pra pensar era isso que era feito! Aí, eu falei: “Porra, olha só, Shakespeare né, cara?” Para você vê como é, as pessoas evoluem. No início eu ficava meio bolado, até outro dia a gente discutiu isso... Assim, “vamos tentar falar com os caras para ensaiar e não sei o quê...” No início eu pensava seriamente isso. Agora, pô, sei lá, mas às vezes me volta sempre isso! Tem alguns que têm que ensaiar, que não tem jeito! Os caras não sabem falar no microfone. É complicado, você nem ouve o que o cara falou. Acho que o cara deveria até se policiar um pouco mais, né? Mas é por causa disso. O que eu escrevo é para ser lido, claro! Mas eu tenho a manha de chegar lá e PUM! Botar a mensagem, porque eu vou botar mensagem, não tem jeito! Tipo, eu sou multimídia. Porra, vamos musicar? Vamos musicar! Você quer fazer um vídeo? Vamos! Eu já penso nisso, entendeu? Eu já tenho essa parada. Agora, er... eu não posso cobrar que todo mundo tenha isso, também não posso cobrar que o cara, porra, às vezes o cara vai ler o poema dele, às vezes o cara vai cantar um samba – eu fui numa roda de samba recentemente -, e eu falei pro cara: “Porra, cara! É teu o samba? Pô, eu não cantaria assim não!” Então você já acentuou que o sentimento é uma coisa que você pontua, né? É complicado, é como... a gente está aqui gravando, é difícil, né? Você sabe mais do que ninguém que uma coisa é falar, outra coisa é escrever. Eu por exemplo posso ser muito coeso e sensato escrevendo, mas posso ser totalmente uma pessoa doidivanas falando. (risos) Eu posso até falar coisas que não têm o mínimo nexo. A não ser o que se passa muito da disposição do outro em escutar. E o poema é sempre assim, porque o poema é um diálogo. Tem poemas e poetas que eu porra, me faz... você é um dos caras que eu gosto pra caralho! Você tem escrito cada vez melhor!


Aldeia Rock Festival, abril de 2009.

Bah!

- Você eu admiro! E tem outros caras que eu admiro também, por exemplo, tem o Laurent [Gabriel] da nova geração, tem o pessoal dos Infames, do grupo do Xisto [da Cunha], fazem várias coisas diferentes. E o Rod Britto, sozinho nem tanto. Porque eu não li muito do Rod. Dos outros eu tive chance de ler o zine deles. Pô, eles esculacham! E o Guila [Sarmento]! O Guila, pô, é espetacular! O cara tem o domínio de apresentar a sua poesia, curta e intensa. Excelente! Outro exemplo é o Wellington [de Sousa]. Wellington às vezes eu fico bolado que ele apresenta assim, meio desleixado. Mas lendo ele, pô, eu gosto! Eu gosto muito da Tatiana [Ronconi]. A Tatiana tem vários momentos que porra, me surpreendem. E o próprio Tolissano, er...o Antonio Tolissano, mas eu gosto, assim... tem coisas que não dá para digerir! E lá dá muito isso, assim! Tem boas surpresas, tem coisas que até são fora da Taverna. O legal da Taverna, cinco anos, vai para seis anos - ninguém vai acreditar na gente – é que me despertou para muita gente nova.

Tem muita gente que hoje recita na Taverna e que quando a Taverna começou ainda era criança!

- É, verdade. Tem um pessoal que tinha catorze anos na época, imagina! Isso é uma coisa que pára num certo orgulho de estar junto com a galera, assim.

Estamos é envelhecendo!

- Pois é. Tem muita gente que fala o seguinte sobre a Taverna, que acabou indo para um caminho que não capitalizou. Eu mesmo falei com o Rodrigo: “Pô, Rodrigo! Tem que botar um lance profi, sei lá, pra fechar com o SESC e tal...” Mas eu acho, assim, tudo tem o seu tempo, né, cara? As pessoas vão se agregando ao movimento e não é à toa que vocês hoje colocam na Taverna muito mais gente que em qualquer outro evento de poesia gratuito no Rio de Janeiro. Eu não posso falar fora do estado do Rio de Janeiro, assim, mas fora da cidade, esse núcleo... Mas em São Gonçalo!

Existem eventos na Zona Sul do Rio que enchem.

- Então, existem eventos que eu sei, os eventos que têm lá na Letras & Expressões que eu estou doido para ir. Tem eventos eu sei, mas com um outro público. Um público diferente, é outra coisa, cara. Ali não, ali você encontra o cara que às vezes vai com o filho, vai velhinho e tal, e no final das contas, cara, o que o cara quer? O cara quer ficar falando para um monte de caras que escrevem também, “Ah, também escrevo!” Daí fica, porra, meio que competindo. Aquela competição de ego e coisa e tal... Ou você quer, pô, chegar para um maluco assim, do nada, como é num show de Rock ou de Heavy Metal, ou de qualquer outra coisa do mundo, ou porra, num vernisage de pintura, e o cara chegar: “Caraca, mermão! Adorei o que você fez!” E o cara que não tem nada a ver com aquilo. Pô, pra mim tem muito mais valor assim, porque ressoou fora daquele ambiente. Eu acho que essa é a parada diferenciada que a Taverna oferece em relação a qualquer outro evento que você tenha. Lá perto das Letras & Expressões, pô, eu já fui lá no Ubaldo, compus inclusive alguns poemas, tive um poema censurado né, que tem o singelo nome de Boceta. Que nunca me deixam declamar... [ele declamou nessa última Taverna]

O poema Boceta Linda?

- Isso, o Boceta Linda! O poema é maravilhoso, todo mundo quer que eu leia esse poema e só recitei na edição do No Uma Noite na Taverna sobre o Bocage. Era porque é a única homenagem que eu posso fazer... “Eu a vejo desnuda / Isenta de penugem / Tingida de vermelho / Vou vasculhar a fundo / Vou sorver o grito / Vou lamber o grelo...” (risos) Isso é maravilhoso! Isso é poético! Mas é aquela coisa... Noites de Ubaldo, né! Como é que é...”Findas noites / findos maços de cigarros e...” E aí eu falo um monte de palavrão, um monte de sacanagem. Eu ficava lá bebendo, enchendo os cornos no Ubaldo, mas o porquê eu ia no Ubaldo? No Ubaldo eu ia encontrar a galera que pô, o pessoal é... a galera vive disso, o cara vive de escrever... O Ubaldo é perto da Livraria Letras & Expressões, lá tem o Bar do Ubaldo... isso é uma coisa que me facilitou muito também, porque lá eu conheci muita gente. O CEP 20.000, por exemplo. Antes de ter Taverna já tinha o CEP 20.000...

Com Rodrigo Santos e Romulo Narducci na Bienal do Livro, no RioCentro (setembro de 2009).

Muito tempo antes, inclusive!

- É. E antes de ter o CEP 20.000, tinha a noite de poesia do... do... esqueci o nome... era lá na Gávea! Tinha um encontro com o Chacal, lá! Aí depois chegou o Zarvos e fizeram o CEP 20.000. Nessa época eu já curtia poesia e curtia também estar no meio dessa galera. Só que sempre foi isso, sempre foi clube de artista. E aquilo me deixava meio nervoso já! Quando começou a migrar para a Faixa, o CEP 20.000, aí é que foi o BOOM do negócio. Que quando, pô... depois começou a ter vários eventos na Lapa, eu já subi para declamar inclusive alguns poemas, o meu poema “O Lutador”... na Faixa, devidamente embriagado, é claro... Mas subi lá e encarei aquela galera inteira. Depois foi pro Sérgio Porto e agora ficou vazio! Começou por muito tempo cheio, depois foi esvaziando porque a galera ia beber na Lapa e ouvir pagodinho e bunda music. É isso que eu falo! Porque ali, a parada não era aquele... não tinha aquele palco aberto, que é bem tipo a Taverna, tipo... pô, eu vou chamar a galera e mostrar os poetas de São Gonçalo! Aquilo virou bem um clube, sempre eram as mesmas pessoas que estavam declamando. Aí, foram fazer palco livre que era maneiro, era uma coisa meio que... nego sacaneava, me lembro do Joe. Joe era uma figura que deve ter morrido, sei lá! Era um maluco clássico do Rio de Janeiro. O Joe ficava vagando pela Praia Vermelha e Lapa e tal e... doidão pra caramba! Ele era maneiro porque ele ficava... ele andava com o pessoal de psicologia e tal, recitava textos de Nietsche e não sei o quê, contextualizava tudo daquele jeito louco dele e teorizava durante duas horas sobre coisas sem sentido. Mas pô, quando o cara subia no palco, o cara dava uma bosta pro Joe! Falava assim: “Pô, cara! Você está descontextualizando o negócio!” Palco livre virou bagunça também! Não tinha um tema, não tinha nada! Era assim, um desfile de ego, né? Mas, pô, teve o seu valor também! Eu estou falando isso porque sei lá, ganhei uma certa... faz parte do passado e eu estou com essa visão hoje daquilo lá. Pode ser que amanhã eu olhe com olhos, né? “Pô, aquilo foi lindo, foi maravilhoso! Mas podia ter sido melhor aproveitado, tanto que poderia ter CEP 20.000 até hoje!

Mas tem!

- Tem?

O CEP 20.000 já fez 14 ou 15 anos de existência!

- É, mas...

E ainda acontece no Teatro Sérgio Porto!

- Eu estive até há pouco tempo lá no Sérgio Porto no show do Farofa... Tá, para me redimir eu acho que vou fazer então uma visita a eles, só para ver como está o negócio.

O Guilherme Zarvos acho que saiu, parou de fazer. Mas o Chacal continua.

- Que o Guilherme saiu, isso eu sei... pensei que tivesse parado. Eu gosto muito do Chacal!

Eu gosto dos dois...

- Ah, eu gosto é do Chacal!

Eu acho o Guilherme uma figura emblemática. Um pouco difícil de lidar, mas é emblemático, até.

- O Guilherme, ele quer ser pop star, ele é foda! Aí, eu fico meio bolado com isso. Quer aparecer a qualquer custo, é foda! Mas deve ser leonino igual a mim! (risos)


Recitando no Aldeia Rock Festival X (abril de 2010).

Tá explicado! (risos)

O leonino quer muito dizer o que o outro deve fazer e tal, mas... afinal de contas quer todo mundo aparecer, né? O cara sente que “o cara é mais leonino do que eu”, sei lá! Acho que pô, eu tenho até essa coisa, minha mulher é leonina, vários amigos meus são todos leoninos...

Pois é, e para a próxima Taverna [que aconteceu no dia 14 de agosto de 2009], o que você está preparando?

- Eu estou preparando alguns poemas novos mesmo, inéditos. Tem mais ou menos uns três poemas inéditos. Um deles até embarca no território do... de construção que eu vi você recentemente até usar, que a gente vê mais comumente no.. num dos grandes expoentes aí, um cara que eu já conhecia antes da Taverna, que é o meu amigo Laurent. E alguns poemas que foram escritos nessa fase mais recente, publicados no meu blog de forma... eu estou até organizando o blog por assuntos, né? Coloco lá o “Bilhete do Descontente”, que é uma coisa que eu até tenho de política, algumas coisas que eu escrevia. Algumas coisas que eu vi na mídia, mais alguns poemas que eu escrevi mesmo, que estão no blog, desse período todo, para pegar uma retomada desses anos de Taverna. Fora isso tem os três poemas inéditos aí, quentinhos do forno que estão esperando para serem burilados e descobertos. Porque, como Drummond falava, a gente até tinha trocado essa idéia, de colocar aquele poema descoberto pelo poema, né? Que está no “A Rosa do Povo”. O poema já está lá, pronto e a gente vai ter que se defrontar com ele, se defrontar com a pergunta crucial que ele faz com a gente que é “trouxeste a chave?” E abrir o poema e entrar nele e apresentá-lo. E falando de Taverna, eu sinto falta de várias pessoas que já passaram pela Taverna, eu sinto a maior saudade... Pô, o Guila, o pessoal dos Infames, que alguns hoje estão na Sala do Sino, um trabalho espetacular! A própria Tatiana, eu tenho saudades das risadas que a gente dava no próprio evento. Er... tudo que rolou nesse período e as pessoas foram se agregando e a gente já teve, não só nas poesias, mas nas apresentações mesmo de esquetes teatrais... tem acontecido uma grande sacada, uma galera que colou com agente e tal, recentemente a gente teve nessa apresentação à França, vejo que tem uma galera do teatro que está com agente e isso é, pô... isso me dá o maior prazer porque além de tudo, de saber que a Taverna não tem dono, foi feita para congrassar. Agente até estava trocando uma idéia antes, dessa coisa da Taverna estar sendo feita de um modelo diferente. Ela saiu daquela coisa do clube de amigos com o intuito de apresentar a poesia. Aí cria no início um certo tipo de estranheza, porque as pessoas vão despreparadas até para ler. Algumas é porque é a primeira vez que estão falando, mas é porque ali é um espaço onde as pessoas estão apresentando o seu trabalho e é muito mais gratificante, eu acho... como num show de Rock, ou como numa vernisage de pintura, é praticamente apresentar! É de chegar alguém e falar: “Cara, eu me identifiquei com você!” Porque você está no meio de uma roda de gente que está fazendo a mesma coisa, tipo uma roda de amigos que estão escrevendo, é legal? É legal! Mas o mais maneiro é alguém que não faz parte daquilo ali, chegar pra você e falar assim: “Pô, cara, você me tocou! Porra, gostei muito do que você falou!” Às vezes alguém achou uma porcaria, mas que as pessoas achem as coisas! É um público diferenciado. Porquê? Porque fazer poesia em São Gonçalo, sinceramente cara, isso não tem preço! Quando São Gonçalo virar uma megalópole, ou ela estiver flutuando... (risos) O cara vai falar assim: “É, todo mundo foi alfabetizado!” E o pessoal vai lembrar assim: “Caraca, eu vou pegar aqui um VHS da Taverna que aconteceu isso aqui...” Pô, eu acho legal a coisa do sentimento e o sentimento é não deixar morrer! Não deixar morrer o cara que está preso em casa, vivendo a sua vidinha cercado pela bunda music, que não consegue sintonizar uma música que ele goste no dial, não consegue ver o livro que ele gosta como um dos mais vendidos, er... se falam de Florbela Espanca, ele pensa que espancaram alguém, e o cara: “Quem espanca quem?” E lá ele vê, “Pô, você não está sozinho, tem gente que lê essa porra! Tem gente que compõe poemas inspirados nisso!” E aí vai ver, esse cara mora em São Gonçalo, e não é Cidinho Doca, porra! O cara mora em São Gonçalo e faz sonetos decassílabos clássicos! Fala de RPG e mora em São Gonçalo! Cara, tem gente em São Gonçalo que faz poesia! É a coisa que tira o cara do suicídio, adia o final cut, eu estava ouvindo até o “Final Cut” do Pink Floyd, que é um dos discos que eu mais gosto. Mas, cara, você poder ressoar, aí você sorri. E sorrir não tem jeito, até quando você está triste e faz um poema depressivo sobre suicídio e tal, e você escreveu e o cara sentiu a mesma coisa que você, caraca, teve a catarse! Você já pode adiar alguns dias aquela parada de fazer outro poema e voltar pra vida! Ter suas decepções, mas nunca deixar de voltar. É isso, aí!


No aniversário de 6 anos da Taverna, janeiro de 2010, SESC São Gonçalo.

E pro pessoal da Taverna, o que você deixa de recado, para quem vai lá no dia 14? [o evento aconteceu em 14/08/2009]

- Cara, assim, utilizar bastante esse espaço buscando o que não conhece, as referências que são citadas. Pô, a Taverna tem um projeto legal que desde o início é o de homenagear sempre um poeta. O objetivo ali não é de ficar declamando somente aquele poeta, nem nada. É de despertar as pessoas para aquele sentimento que aquele poeta passou. Isso é uma coisa importante, da referência, que vai te dar muito mais chão... Que nunca deixem de buscar, que nunca deixem de expressar, buscar seu sonho, ver que é possível, a Taverna é um resultado disso e é mais gostoso porque é coletivo, que a poesia é um exercício solitário mas que tem esse seu lado... Se você quiser guardar na gaveta, beleza! Mas a poesia tem o seu papel de liberdade, tem o seu papel de terapia, tem o seu papel de ferramenta revolucionária, de diversão, de música, ela está presente, porra, no texto literário mais complicado. Cita desde Newton a coisas de que você nunca ouviu falar, como também está na coisa direta do Bandeira de falar da tua dor de dente, da tua dor de barriga... A palavra está escondia em tudo quanto é lugar! Essa é que é a beleza dela. Ela não está ali à toa para você pegar e fazer o que quiser, ela te pede mais. Quando você conhece os mestres, conhece quem já fez, então busca até falar o que você vai falar para os outros. Você vê que a mensagem, ela é muito mais responsável. Tanto que você se sente responsável, você pega a dimensão das coisas e transforma essa coisa numa coisa maior. Uma coisa que fica cravada na pedra, né? Você não escreve mais com tuas palavras, você já deixa elas gravadas numa pedra que vai ficar sempre no coração de quem ouvir e vai ressoar de inúmeras formas. Pode ser que você esteja escrevendo ali para falar para duzentas mil pessoas, como pode ser que você esteja escrevendo num anel de ouro ou de diamante quando você estiver falando para um grupo de cem pessoas ali na Taverna. Isso vai depender do dia, da hora e tal, mas isso não interessa, o que interessa é o sonho de poder estar comunicando a sua mensagem para quem quiser ouvir.

Muito bom! Evoé, Pakkatto!

- Evoé!

Mais uma vez, obrigado cara! E que tudo isso que foi proferido seja guardado pela eternidade!

- Exatamente, vamos ver se a edição vai ser boa como os seus poemas. (risos)


Com o poeta e músico Rodrigo Vieira, em frente ao Bar Mr. Jack, em São Gonçalo.

CONFIRAM OS TRABALHOS DE PAKKATTO EM SEUS SITES:

http://www.myspace.com/pakkattogroove

http://pakkatto.blogspot.com/

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Exposição: "Namorados", de Bianca Tupinambá.

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Expondo no evento niteroiense Arte Jovem Brasileira

Bianca Tupinambá é carioca, tem 26 anos, é formada em letras em português/literatura. Ela descobriu a arte de ilustrar ainda adolescente quando começou a desenhar como hobby. Sua primeira experiência profissional com a arte foi uma ilustração feminina em preto e branco, posteriormente vendida para uma escritora, e desde então não parou mais de desenhar.
Atualmente Bianca expõe seus trabalhos em seu site site (http://www.vejoemcores.com.br/) e em outros sites de arte como o "Ask the Dust" , "LVCS4" , "Frente" , "DesignFlakes" , "Pã Revista de arte e cultura" além de participar como assistente editorial e ilustradora da revista eletrônica Aliás ( http://www.aliasrevista.net/ ), e também faz parte do site "Tupixel", catalogo de ilustradores brasileiros.
Ela já expos seus trabalhos no Sesc Tijuca no Projeto Geringonça e no espaço Convés no Movimento Arte Jovem, e agora nos dará o prazer de apreciar a sua mais nova exposição "Namorados" em nosso Uma Noite na Taverna.
A segiur alguns de seus trabalhos que estarão expostos na próxima sexta-feira, dia 09 de julho, na Taverna, a parir das 19 horas:













Há um ano Bianca Tupinambá se dedica em tempo integral ao seu trabalho como ilustradora. Depois de terminadas, as ilustrações são postadas em seu site. Os elogios são constantes, vindos tanto de amigos quanto de profissionais do ramo, e para ela não existe incentivo melhor para continuar.

Suas telas e ilustrações também estão à venda, o contato para encomendas é através do e-mail: vejoemcores@gmail.

http://www.vejoemcores.com.br/

http://twitter.com/vejoemcores

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Gilber T e suas viagens sonoras

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Pela segunda vez no Uma Noite na Taverna, Gilber T e sua banda irá apresentar no dia 09 de julho, o seu caldeirão musical que mimetiza do rock pesado, pop rock, black music a música brasileira. A novidade é o lançamento de seu segundo disco, Eu Não Vou Morrer Hoje, que traz a participação de vários artistas de conceito nos mais variados estilos. A banda Gilber T é composta por Gilber Chavão (voz e guitarra), Bruno Marcus (synth e banjo), João Pinaud (guitarra), Kléber Murilo (baixo) e Gil Mendes (bateria). Uma verdadeira viagem sonora, que a própria resenha da banda explica, com a palavra, Silvio Essinger:

"Entre a casa e o trabalho, faço o meu melhor. Vejam só! – a melhor pista para entender Gilber T está aí mesmo, na letra de uma das 12 músicas que compõem o CD Eu Não Vou Morrer Hoje. Alguns o conhecem como guitarrista do Laura Palmer, coletivo do Rio que resgata hoje o que de mais interessante havia no rock brasileiro dos anos 80: uma mistura de curiosidade, falta de cerimônia para quebrar barreiras e amor pela erudição pop. Outros ainda hão de lembrar de Gilber T como o guitarrista do Tornado, uma das várias bandas que botavam fogo no underground carioca dos anos 90 (de Garage Art Cult e demais buracos) friccionando black music e rock pesado.

Mas é de um outro Gilber, de que fala esse disco: o cara que concilia as dores e delícias do cotidiano – emprego formal, contas a pagar, mulher, engarrafamento, cachorro – com as viagens transcendentais que faz em sua própria cabeça, ao som da guitarra de Jimi Hendrix. Em seu momento de escape, a fuga é a música. E a música é sua melhor tradução, sua melhor crônica. De tudo que é e o que ainda pode ser. De um mundo complicado, veloz e perfeitinho, onde Bob Marley toca com acompanhamento dos Pixies num bar de São Gonçalo, com muita cerveja barata.

Todas as loas à tecnologia dos anos 00, que possibilitou ao cara sentar na frente de um computador e, no tempo livre, montar seu primeiro disco solo. Ele plugou suas guitarras SG e Telecaster na placa de som, escolheu os samples, programou as batidas, tocou baixos e sintetizadores e deixou o resto nas mãos dos amigos Bruno Marcus (que tocou mais alguns instrumentos, soltou beats e ainda cuidou da produção e mixagem), Gil Mendes (da bateria tribal e animal) e Ronaldo Campos (do baixo). Assim, com toda calma, foi feito o disco desse guitarrista e compositor influenciado por vários estilos, que, em suas próprias palavras, “junta, copia, sampleia, recicla e envolve com canções de três minutos em média, refrões repetitivos, alternando estrofe/refrão, eventuais solos de guitarra ou não, tudo conforme a cartilha pop.”

E vamos pela ordem. Eu Não Vou Morrer Hoje começa com “Se Você For...”, um ska contagiante, com beat de “Bone Machine”, o uiê! de Bob Marley, órgão e guitarra trêmolo – é aquela tal viagem, tentando unir Pixies e Marley, nas curvas da estrada de Tribobó (“Podia acelerar quando a polícia chegar. Podia correr quando a gasolina acabar”). Segue a vinheta “Epifania”, que tem tanto de Oriente Médio quanto do clima faroeste de “Unforgiven”, do Metallica – ela é, na verdade, a reciclagem de “Pirâmides”, tema que Gilber T compôs na adolescência e que ressurge como flashback de uma história muito pessoal. “Tenho uma Bomba”, por sua vez, é o cara brincando de Beck, ao juntar guitarra slide e beatbox de dancehall. E o que você ouve ali no meio não são scratches – são efeitos de chave de guitarra, ferozes, bem Rage Against The Machine. Na letra da canção, Gilber investe em metáforas para falar de um amor explosivo, imaginando um jardim de rosas da Faixa de Gaza (“Escolha o fio certo e desarme minha tristeza”).


Na seqüência, “Hey Menina” surge pop, folk e ensolarada como as boas músicas do Sublime. É violão e beats, com toques de guitarra Hendrix de Axis Bold as Love – ouça lá e depois venha dizer se Gilber T não sabe o que faz com as seis cordas! A eletrônica junta bateria acústica e eletrônica, costurando também samples de Prince e Nina Simone em mais uma canção de amor do disco. Já o samba-rock “Bel 2604” é a música que o guitarrista fez para a mulher – se Jorge Ben cantou em verso e suingue as suas Teresas e Domingas, porque Gilber T não pode fazer o mesmo com a sua Isabel? A festa de percussão, dos amigos Fábio Lessa e Paulo Márcio e o piano elétrico à la Beck de “Where It’s At?” embalam versos tipicamente benjorianos como “esculpi o seu rosto numa ametista / minha obra de mestre, minha peça mais rara.” Uma outra musa dá as caras na latina (com direito até a bongozinho sampleado) “Silêncio Hola”: é Luciana Lazulli, vocalista do Laura Palmer, emprestando sensualidade a esse pop hipnótico, meio Happy Mondays e cheio de poesia (“Enquanto o sono não me entorpece / mergulho na paz que não me adormece”).


E chegamos enfim a “Eu Não Vou Morrer Hoje”, música que dá título ao disco e que nasceu numa viagem de van, em tempos de baixo astral, com muito Fevers na cabeça. Depois, com um pouco dos sintetizadores de The Cars para colorir e uma citação a Joy Division (“eu não vou morrer hoje / eu soube quando ouvi ‘Love Will Tear Us Apart’”), ficou pronta essa música que oscila entre extremos de sentimento. “Nas estrofes, a letra é alegre e a melodia é triste. No refrão, a letra é densa, mas a melodia é alegre”, explica o autor. Daí viramos a esquina e lá estamos nós na “Alameda São Boaventura” (via que liga a Ponte e o Centro de Niterói e Alcântara e Marica) – a “Crosstown Traffic” de Gilber T, composta (como é de praxe) no trajeto para chegar ao trabalho. A bateria tribal de Gil Mendes e o rap inspirado de Speed Freaks (um dos melhores amigos de Gilber, morto recentemente) acompanham a epopéia urbana e um tanto lisérgica do guitarrista. O sinal verde, o verdinho queimando no cigarrinho maluco, a buzina da gata... As imagens abundam. “Gasolina carbura, esquentando a cidade / o chão arde / Speed e Gilber, catástrofe urbana em alta velocidade”. E o trânsito parado na Alameda.

Tem horas em que dá vontade de pegar uma estrada vazia e fugir. E aí vem, em seguida, a bela faixa “Eu, Você e Suzie”, um emotivo country & western que é puro Johnny Cash. “Eu estava muito a fim de fazer uma canção em que citasse minha cadela Suzie, como se fosse uma descrição de uma fuga minha, de minha mulher e de Suzie por uma estrada sem fim que sempre sonhei em percorrer, mas que até então não tive a oportunidade”, conta Gilber. Suzie morreu dois meses depois de a música ter sido gravada. “Mas ainda consegui registrar seus latidos.” Logo depois, é a vez de “Seu Amor é Suicídio”, canção que tem Portishead, folk, Bob Marley, ragga e mais imagens on the road (“Guiando meu carro em baixa velocidade / rodando a cidade / buscando as cores de um fim de tarde”).


E assim chegamos ao fim da viagem de Eu Não Vou Morrer Hoje com “Numsobranada”, faixa na qual Gilber solta um rap em parceria com o niteroiense De Leve sobre uma gorda base eletrônica, entre o Miami bass de um 2 Live Crew e um future funk de Missy Elliot. “Nem imaginava em fazer letra”, conta ele. “Mas um dia indo para casa, parei com meu carro em cima de uma pedra que duas semanas antes tinha arrebentado meu cano de descarga. Daquele dia em diante, toda vez que não batia o fundo do carro na pedra eu cantava: Desviei da pedra! Aí, me deu um estalo e pensei em desenvolver uma letra de conotação espiritual. Juntei trecho da Bíblia, citei a caminhada de Cristo e falei das coisas de moleque, tipo ser benzido contra mau olhado.” Clóvis, um colega de trabalho de Gilber fez a introdução Tim Maia Racional da canção e Pedro Selector, dos Seletores de Freqüência de BNegão, mandou ver no trompete. É pra cantar junto: “Desviei da pedrada, ouça o som da estilhaçada. Desviei da pedrada, se bater numsobranada.” E aí fica a lição de Gilber T, o homem que, apesar de tudo, fez o seu disco. E agora espera que você o ouça – até o ponto final."

Silvio Essinger, Janeiro de 2010.


“UTI” é a faixa bônus, feita com os amigos De Leve, Rabu Gonzáles e Speed Freaks. Infelizmente, após essa gravação, o rapper Speed Freaks, um dos precursores do hip hop no Brasil e amigo de infância de Gilber, morreu assassinado em circunstâncias ainda não esclarecidas. Presume-se que este seja o último registro da voz de Speed Freaks.

Este disco é dedicado à sua memória.

Paz.

Contatos: gilbergtr@gmail.com

Assessoria de Imprensa: mansur@gravemusic.com.br

www.myspace.com/gilbert2604


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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Monique Ribeiro e Camila Mira: dançando para Vinícius.

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Monique Ribeiro e Camila Mira farão uma bela apresentação de dança no Uma Noite na Taverna dessa sexta-feira, em que as homenagens estão voltadas para os 30 anos sem o poeta Vinícius de Moraes. As duas belas e jovens artistas, além da dança estão envolvidas com o estudo do teatro e da literatura. Mas é na dança que ambas se realizam como artistas, participando de vários eventos em que se apresentam solo ou em grupo.
Monique Ribeiro e Camila Mira, frequentadoras de longa data do Uma Noite na Taverna, enfim, se apresentarão no evento prometendo uma belíssima performance em homenagem ao poeta Vinícius de Moares, onde farão uma performance com a música "Falando de Amor".

MONIQUE RIBEIRO

"Me deram a tarefa de escrever sobre o meu contato com a dança. Acho que o homem (o bicho gente) reconhece o belo, então pensar quando foi que eu comecei a reconhecer o belo e como por ele me deixei levar é algo que, sinceramente, não faço idéia. O que não me impede de arriscar! Sou da geração “Xuxa” (lembra da bota de paquita? Eu adorava, tinha uma vermelha! Lembra das Paquitas?! “É tão bom! Bom Bom Bom ... quem quer bom? Bom, bom, bom...”), “Angélica” (“ Vou de táxi, c' sabe...”), “Trem da Alegria” (“Ô ô ô ô ô ô... Olha o lobisomem!”) ... (risos) nossa que velha! Mas acho que foi assim que comecei a dançar! Ah, sim! Sou da época da lambada... “Dançando lambada ê, dançando lambada, ah”... e da época do É o Tcham! (risos). É! Comecei a dançar na frente da caixinha mágica... Aos cinco anos fazia aulas de Ginástica Rítmica, depois parei e fui fazer teatro. Aos vinte e um anos de idade, quando comecei a estudar História na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, tinha aula vaga nas segundas e quartas no exato horário em que um grupo de dança ensaiava no Palácio de Cristal. Um belo dia, motivada por minha curiosidade (pela dança e pelo lugar), quis ir até lá pra ver qual era, me apaixonei pelo grupo e estou lá até hoje. E ponto final, mas não o fim..."




CAMILA MIRA

"Comecei a dançar a partir do momento que comecei a andar. Minha familia conta que eu não podia passar por nenhum lugar com música que começava a dançar, até em frente de igreja, isso eu tinha 1 ano e pouco. Mas na dança mesmo eu comecei na escola, com 5 anos, fazendo jazz, minha mãe que quis me colocar, pois ela sempre gostou de dança e aproveitou meu entusiasmo para fazer o que ela também sempre quis. Meus pais sempre foram meu incentivo nesse caminho. Participava de todas as coreografias da escola que eu podia. Aos 9 anos entrei numa academia para fazer jazz moderno e fiz minha primeiro apresentação para uma grande público, dancei num evento na na quadra da universo de São Gonçalo. Me lembro até da roupa era o famoso conjunto da Bad Boy, que coisa horrível era aquilo! (risos) Depois o jazz acabou na academia, e voltei para a escola primária que eu estudava fiz lá até quase 12 anos, mas o jazz também acabou lá, só tinha ficado eu de aluna. E depois disso a única coisa de dança que tinha mais perto de onde eu morada era o que tava na moda na época, a lambaeróbica. fiz seis meses aos 13 anos e odiei, foi minha fase mais trash na dança. (risos) Com 14 anos entrei numa outra academia para jazz novamente, e a professora tinha um grupo do qual comecei a fazer parte, e assim para o primeiro grupo de dança o Stúdio de Dança Raquel Rosãnea, que continuo até hoje e tenho um grande carinho. Nesse grupo tive contato com o Hip-Hop e a Dança de Salão. Mais tarde uma de minhas irmãs mais velhas passou a fazer dança do ventre e eu comecei a aprender com ela em casa. Hoje ela é professora de dança do ventre e até hoje continua me ensinando algumas coisa quando pode. Aos 19 anos entrei para a Faculdade de Formação de Professores da UERJ para fazer Pedagogia e lá conheci o Projeto "Quem Dança faz Arte" Que também faço parte até hoje, onde temos aulas de jazz contemporâneo, ballet contemporâneo e o que mais houver necessidade. (risos) Onde lá conheci conheci a Monique, e criamos uma amizade muito forte, uma companhia nas mais loucas viagens mentais."

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A dança sempre marca presença no Uma Noite na Taverna, já houveram no evento manifestações diversas de Dança do Ventre e até de Dança Contemporânea. É uma arte que a cada dia se valoriza pela beleza e pela constante evolução que faz parte das artes mais sublimes.

"Quando eu nasci / Já dançava", disse Mário de Andrade em um de seus versos. Assim, como o poeta modernista é a humanidade. Desde os primeiros vestígios do ser humano, tem-se registros de que a dança estava presente nas suas mais diversas manifestações. Sendo assim, temos que a dança existe há mais de 10 mil anos, desde que o homem se organizou socialmente. Foi dela, de suas manifestações ritualísticas que surgiu o teatro. E junto do teatro, é umas das três manifestações das Artes Cênicas mais antigas, ao lado também da música.

Caracteriza-se pelo uso do corpo seguindo movimentos previamente estabelecidos (coreografia) ou improvisados (dança livre). Na maior parte dos casos, a dança, com passos cadenciados é acompanhada ao som e compasso de música e envolve a expressão de sentimentos potenciados por ela.

A dança pode existir como manifestação artística ou como forma de divertimento e/ou cerimônia. Como arte, a dança se expressa através dos signos de movimento, com ou sem ligação musical, para um determinado público, que ao longo do tempo foi se desvinculado das particularidades do teatro.

Atualmente, a dança se manifesta nas ruas em eventos como "Dança em Trânsito", sob a forma de vídeo, no chamado "vídeodança", e em qualquer outro ambiente em que for contextualizado o propósito artístico.

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terça-feira, 29 de junho de 2010

Uma Noite na Taverna com a poesia de Vinícius de Moraes (30 anos sem o poetinha)

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No dia 09 de julho, exatamente no dia em que faz 30 anos de morte de um dos maiores poetas de nossa história, o nosso evento Uma Noite na Taverna, mais uma vez, homenageará o incomparável Vinícius de Moraes.
É a terceira edição da Taverna em homenagem a Vinícius, que fora também o primeiro poeta consagrado homenageado pelo evento, em fevereiro de 2004. No ano passado a homenagem aconteceu no dia 13 de fevereiro. Assim, Vinícius de Moraes torna-se o poeta mais homenageado pelo Uma Noite na Taverna. Como podem ver, ele sempre volta! Parece que o Poetinha gostou mesmo do clima boêmio do evento.
O Uma Noite na Taverna estará muito especial, pois será agraciado mais uma vez por diversas vertentes da arte com uma seletiva de excelentes artistas. Os poetas residentes e idealizadores do evento, Rodrigo Santos e Romulo Narducci, homenegearão Vinícius de Moraes com leituras de vários poemas do artista.
O evento ainda conta com a participação do trovador tavernista Pakkatto que recitará seus trabalhos próprios; com a performance poética "Vermelho-sangue" da poeta e atriz Suzanne Morais; com a música da badalada banda Gilbert T, que se apresentará pela segunda vez no evento e estará lançando o seu CD "Eu Não Vou Morrer Hoje"; com a esquete teatral "E por Falar em Pierrot", de Gabriela Slovick, direção de Sérgio Santal, produção de Carolina Dias, com os atores Tiago Atzevedo e Andréa Bernadete; e ainda com a exposição "Namorados" da artista plástica e poeta Bianca Tupinambá.
BIOGRAFIA

Nascido em 19 de outubro de 1913 como Marcus Vinícius de Mello da Cruz Moraes, no Rio de Janeiro, Vinícius de Moraes viria a ser um dos maiores artistas brasileiros que o mundo já conhecera. Filho de uma família amante das letras e da música, Vinícius seguiu por opção as duas vocações. Ainda no colégio e no período da faculdade de Direito, na qual formou-se em 1933 - porém nunca exercera a profissão de advogado -, escrevera escrevera letras para os foxtrotes "Loura ou Morena" (com Haroldo Tapajós) e "Dor de Uma Saudade" (com José Medina) e a valsa "Canção para Alguém" (com Haroldo Tapajós).
Nessa época, também publica seu primeiro livro de poesia "O Caminho Para a Distância", considerado imaturo pelo próprio poeta. Tornou-se amigo de Oswald de Andrade, Manoel Bandeira e Mário de Andrade, porém afirmava que sua maior influência poética ainda era o seu pai, Clodoaldo da Silva Pereira Moraes, que o próprio Vinícius dizia ser um poeta pós-parnasiano com um pé no Simbolismo.
Recebeu o "Prêmio Felipe D'Oliveira" pelo livro "Forma e Exegese", em 1935. No ano seguinte, lançou o livro "Ariana, a Mulher", quando obteve o emprego de censor cinematográfico junto ao Ministério da Educação e Saúde. Dois anos depois, Vinícius de Moraes ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford, onde conheceu as obras de Shelley, Keats, Yeats, Coleridge e Shakespeare.

Em 1941, por causa da 2ª Guerra Mundial retornou ao Brasil e empregou-se como crítico de cinema no jornal "A Manhã" e colaborou com suplementos literários em jornais e revistas. Mas como isso não rendia nem para o uísque, como o próprio dizia, empregou-se no Instituto dos Bancários e começou a estudar para o Itamaraty. Nessa época, seus versos eram marcados por uma linguagem mais simples, sensual e, carregados de temas sociais. Em 1943, publicou o livro "Cinco Elegias", que marcou esta nova fase, e "Poemas, Sonetos e Baladas", em 1946 - obra ilustrada com 22 desenhos de Carlos Leão.

Aprovado no concurso, após estagiar com João de Cabral de Melo Neto, em 1946, assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles. Com a morte de seu pai, em 1950, Vinícius de Moraes retornou ao Brasil. Nos anos 50, Vinícius atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda.

Além, da carreira diplomática, de onde atuou até o final de 1968, Vinícius começou a se tornar prestigiado com sua peça de teatro "Orfeu da Conceição", obra de 1954. Além da diplomacia, do teatro e dos vários livros publicados, sua carreira musical começou a deslanchar em meados da década de 1950 - época em que conheceu um jovem pianista, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, Tom Jobim, que na época tinha 29 anos e vivia da venda de músicas e arranjos nos inferninhos de Copacabana -, quando diversas de suas composições foram gravadas por inúmeros artistas, ajudando a dar explosão a partir de 1958 em um dos maiores movimentos da música brasileira, a Bossa Nova.



Vinícius e Tom Jobim

Na década seguinte, Vinícius de Moraes viveu um período áureo na MPB, no qual foram gravadas cerca de 60 composições de sua autoria. Foram firmadas parcerias com compositores como Baden Powell, Carlos Lyra e Francis Hime. Em 1964, após voltar novamente de missão diplomática ao Brasil, logo se apresentou na boate "Zum-zum", ao lado de Dorival Caymmi, Quarteto em Cy e o conjunto de Oscar Castro Neves. O concerto teve repercussão no meio artístico, sendo lançado o LP pelo selo Elenco, contendo composições como "Bom Dia, Amigo" (parceria com Baden Powell), "Carta ao Tom", "Dia da Criação" e "Minha Namorada" (parcerias com Carlos Lyra), e "Adalgiza", "... Das Rosas" "História de Pescadores" e "Saudades da Bahia" (parcerias com Dorival Caymmi).


Durante 1968, Vinícius de Moares participou de shows em Lisboa, na companhia de Chico Buarque e Nara Leão. Também naquele ano, a convite do crítico Ricardo Cravo Albin, Vinícius prestou histórico depoimento para o Museu da Imagem e do Som (de onde era membro do Conselho Superior de MPB). Mas foi também no ano de 1968 que marcou o fim da carreira diplomática de Vinícius de Moraes. Após 26 anos de serviços prestados ao MRE, Vinícius foi aposentado pelo Ato Institucional 5, fato que o magoou profundamente. No dia em que o ato era editado, Vinícius encontrava-se em Portugal onde realizava um concerto. Após este espetáculo. estudantes salazaristas estavam aglomerados na porta do teatro para protestar contra o poeta. Avisado disto e aconselhado a se retirar pelos fundos do teatro, o Poetinha preferiu enfrentar os protestos e, parando diante dos manifestantes começou a declamar "Poética I" (De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De amor ardo). Então, um dos jovens retirou a capa de seu traje acadêmico e a colocou no chão para que Vinícius pudesse passar sobre ela - ato imitado pelos outros estudantes e que, em Portugal, é uma forma tradicional de homenagem acadêmica.

Vinícius, Marieta Severo e Chico Buarque

Em 1969, iniciou suas primeiras composições com um novo parceiro, o violonista Toquinho. Desta parceria, vieram os clássicos como "Como Dizia o Poeta", "Tarde em Itapoã" e "Testamento". Em 1970, Vinícius se apresentou na casa de espetáculo carioca Canecão, com o parceiro Tom Jobim, com o violonista Toquinho e a cantora Miúcha. O show, que relembrou a trajetória do poeta ficou quase um ano em cartaz devido ao grande sucesso obtido. Outra apresentação marcante de Vinícius de Moraes, ao lado de Toquinho e da cantora Maria Creuza, foi em Buenos Aires, na boate La Fusa. O antológico concerto resultaria no LP ao vivo "Vinícius En La Fusa", uma das mais belas jóias guardadas ao vivo da música brasileira. Durante essa década Vinícius seguiu lançando álbuns e livros de grande sucesso.


Toquinho e Vinícius


Vinícius e Os Cariocas


Tom Jobim, Vinícius, Ronaldo Boscoli, Roberto Menescal e Carlos Lyra.

Há exatos 30 anos, na madrugada de 9 de julho de 1980, Vinícius de Moraes começou a passar mal na banheira da casa onde morava na Gávea, vindo a falecer depois. O poeta passou o dia anterior com o parceiro e amigo Toquinho, com quem planejava os últimos detalhes do volume 2 do álbum "Arca de Noé". Em 1981, este LP foi lançado.

BIBLIOGRAFIA



- O Caminho Para a Distância (1933);

- Forma e Exegese (1935);

- Ariana, a Mulher (1936);

- Novos Poemas (1938);

- Cinco Elegias (1943);

- Poemas, Sonetos e Baladas (1946);

- Pátria Minha (1949);

- Antologia Poética (1954);

- Livro de Sonetos (1957);

- Novos Poemas (II) (1959);

- Para Viver Um Grande Amor (1962);

- A Arca de Noé (Poemas Infantis) (1970);

- Poesia Completa e Prosa (1998).


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