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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Entevista com Eduardo H Martins: Um Nephelim entre nós!

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Essa entrevista deveria ter sido publicada antes do evento Uma Noite na Taverna do último dia 12 de novembro. Por motivos alheios a nossa vontade, estamos publicando somente hoje, dois dias após a Taverna. Todas as referências aqui deverão ser reportadas cronologicamente ao dia do evento, que já ocorreu. Evoé e bom entretenimento!

Eduardo H Martins é um e vários. Artista tavernista multifaces, é poeta, fotógrafo, designer gráfico, dee-jay (sob a alcunha de Eduardo Nephelim) e ainda traz um passado de peso como ex-baterista da lendária banda de Doom Metal Sybolic Immortality, e ainda como batera de ter tido o momento mágico de abrir um show para a banda Krisiun.

Seu fascíno pela arte é descarado, o Nephelim tavernista fala de arte com um um olhar fixo nos olhos de quem pergunta, respira fundo e a plenos pulmões expõe as suas idéias. Um anjo rebelde das noite gonçalenses e um filho amado da arte tarvernista.

Recebi Eduardo H Martins em minha casa na véspera do feriado de Finados, às 23 horas, mais ou menos. Abdicamos da cerveja e do vinho e optamos por uma overdose de cafés expressos. Sob a assombrosa noite em meu terraço, à luz de velas, em honraria à taverna e à memória de tantos mestres que não se encontram mais em nosso mundo, batemos um papo-cabeça sobre suas influências e experiências na música, poesia, no mundo das artes em geral, enfim, conheçam vocês mesmos o poeta, o amigo, o artista, o tavernista, pois como sabemos agora, há...

UM NEPHELIM ENTRE NÓS

Boa Noite, Eduardo. A arte sempre fez parte de sua vida?

Pelo menos desde que eu me entendo como gente. Na verdade, tudo começou... não sei, acho que desde criança. Eu sempre fui uma criança introspectiva, uma criança meio calada. Até minha mãe mesmo dizia que eu não era muito de chorar. Eu parava num cantinho, brincava sozinho... sei lá, no colégio também eu sempre fui bastante observador.

Quando você notou pela primeira vez que você tinha um dom para a arte?

Não sei nem se eu tenho (risos).

Começou na música, certo?

Bem, eu li uma matéria há algum tempo atrás, num blog de um amigo que me definiria muito bem... foi no blog de um amigo chamado Romulo Narducci (risos). Ele disse que brigava muito consigo mesmo, que não sabia no início se era poeta ou músico. Eu acho que isso me define bastante bem, porque eu tentava cantar minhas poesias, tentava... musicar... er... na verdade, eu acho que eu tentava musicar minhas poesias e cantar os meus pensamentos. Eu acho que é mais ou menos por aí.

Então essa coisa de você escrever pensando como compositor, já vem há muito mais tempo do que quando você se descobriu poeta?

Muito. Eu comecei a escrever, mais ou menos na época em que eu comecei a tocar com uns quinze ou dezesseis anos. Er... aí, eu comecei a tocar e comecei a fazer parte de alguns grupos, de algumas bandas e tudo o mais. Mas aquilo não era só o que eu pretendia. Sentar atrás de um instrumento , fazer um som era legal, mas...

Espera! Você falou em sentar-se atrás de um instrumento. Só para esclarecer...

É, bateria!

E o que você ouvia? Que tipo de música começou a te influenciar a ponto de você querer tocar e montar uma banda? Enfim, qual o estilo musical que te impulsionou a ser músico?

Bem, as primeiras coisas que eu me interessei, acho que mais ou menos era o que as pessoas de nossa idade costumava ouvir, que era Black Sabbath, Iron Maiden... eu criei um certo fascínio depois para ouvir The Doors, mas o que me fez escolher o instrumento mesmo, acho que foi o Rush.

Humm... Rush?

Foi... foi, eu tinha uns amigos que eram viciados no Rush. Inclusive, um deles faleceu há pouco tempo, que foi o Leandro. Eram gêmeos, inclusive. E ali todos eram fissurados pelo Rush. E aí, eles me mostraram isso e eu com os meus dezesseis ou dezessete anos, por aí. Bem, eu... eu já tinha um certo fascínio, comecei a tocar um pouco antes, mas ainda tinha determinadas dúvidas em relação a instrumento. Eu me configurei como baterista mesmo, depois que eu conheci o Rush.


Então, Neil Peart é o seu herói?

Foi o meu divisor de águas! Eu já tocava, mas eu tinha, ainda, aquela coisa do baixo, aí eu depois disse: “não, é isso que eu quero fazer!”

E qual foi a primeira banda que você tocou? Foi de Rock, certo? Na verdade, você fez sua carreira de músico sempre dentro do Rock, não é?

Bem, eu fiz muita coisa sem expressão. Tocava com amigos e tudo o mais. Mais, mesmo por diversão. Com meus dezessete anos, eu conheci uns amigos que resolveram: “Não, agora sim! Vamos fazer uma coisa séria!” Aí surgiu a Symbolic Immortality. Essa foi a minha primeira banda séria que eu tive. A gente chegou a gravar demo tape [fita k-7 que as bandas gravavam no estúdio], a compor de verdade, com música de início, meio e fim. Então, eu comecei a escrever e participar ativamente disso. A gente tocou em outros estados, gravamos duas demo tapes e um compacto que foi distribuído no mundo inteiro. Eu acho que até hoje tem gente ganhando dinheiro com isso, aí pra fora.

Como assim? Vocês não viram nenhum puto desse dinheiro?

Exatamente. A gente não viu nenhum tostão. A esmola que a gente teve por conta da gravadora, que não existia nessa época, pois eram apenas selos independentes, era que eles davam um determinado número de cópias de LP’s [Long Play / disco de vinil] para as bandas e o resto eles faziam o que eles quisessem. E você gravava, gastava dinheiro com ensaio, com instrumentos, que não era uma coisa barata; hoje em dia você tem uma certa facilidade.

Hoje você faz um estúdio em casa, mesmo.

É, se você tiver um computador e um programa decente, você monta um estúdio em casa.

E quem tocava com você no Symbolic Immortality?

Começou comigo, com Esaú, que era o baixista e vocalista, e... o Alan, que era o guitarrista, e é o meu amigo até hoje! Essa foi a primeira formação da banda. Depois, o Alan deixou a gente por motivos pessoais e tal, e entrou uma pessoa que até hoje em dia é bem conhecido no meio da arte gonçalense. Ele participou também, teve a sua colaboração. Se você perguntar para ele, ele vai dizer é que teve a sua parcela de culpa (risos).

Eu bem sei quem é.

Sim, o nosso amigo Leandro Ribeiro.

Eu sei que vocês têm muitas gravações. Inclusive, eu sou um privilegiado em ter algumas coisas da banda...

O compacto Yogan, foi gravado com ele [Leandro Ribeiro]. Ele participou de um material que foi distribuído pelo mundo inteiro. Saiu até uma matéria no jornal O Fluminense assim “Banda Gonçalense Explode na Europa!” Saiu essa matéria no jornal e eu nem tenho isso pra provar!

Poxa, com isso nem um show na Europa? Não apareceu grana, nem nada?

Não. Surgiram apenas alguns boatos. Eu recebi algumas cartas, mas nada que fosse considerável, até porque nessa época uma banda para sair daqui com os instrumentos nas costas, a própria banda que teria que bancar a passagem e a gente não tinha condições de fazer isso. Sair daqui, bancar tudo e ir para a Europa excurcionar, ninguém tinha condições de fazer isso. Todo mundo era assalariado, trabalhador, moleque, todos garotos, apenas, né. Nessa época eu tina apenas uns dezenove anos. Então, não tinha como fazer muita coisa.

E porque acabou?

A coisa foi acontecendo e chegou num certo patamar que... começamos a ter problemas internos, dentro da banda, problemas religiosos...

Religiosos? (risos)

É, o vocalista começou a se achar um deus e o resto da banda não concordava com isso (risos). Enfim, ele teve problemas, e aí a gente resolveu se afastar por nossos problemas pessoais também. A gente começou a se estranhar por causa de outras coisas, já não estava fluindo, já não tinha a mesma freqüência.

E depois do Symbolic Immortality, não surgiu mais nenhum projeto de expressão?

Eu fiz uma participação na Cold Blood, que é uma banda de uns amigos, foi legal, a gente até abriu um show pro Krisiun, que é uma banda hoje em dia mundialmente conhecida. Mas na verdade, foi mais para quebrar um galho, mesmo. Eles estavam precisando de um baterista para fazer esse show, porque por algum motivo o baterista deles não poderia tocar, aí eu fui lá. A gente ensaiou por um mês, uma coisa meio que briga comprada, né. Tipo: “Vamos tocar? Vamos tocar!” Ensaiamos por um mês e fomos para dentro pra ver no que ia dar. E foi bacana, foi bem legal.

Depois disso, você então parou com a música?

Eu fui viver! Fui viver, fui fazer outras coisas, participar de outras coisas. Foi quando o poeta começou a falar mais alto. E eu tinha muito pra dizer e ninguém pra me ouvir. Resolvi escrever. As coisas foram acontecendo e as pessoas começaram a prestar atenção.

Quando você recitou pela primeira vez? Quando você pôde mostrar isso para o público?

Nem me lembro, me diz você! (risos)

Er... foi na Taverna? (risos)

Foi, foi na Taverna! Culpa sua, inclusive!

Oh, mea culpa! (risos)

Como eu disse, eu sempre fui muito tímido, muito introspectivo.


Lembrei! Foi na época em que o evento acontecia no extinto Jardim da FASG [Fundação de Artes de São Gonçalo]!

Exato! Er... assim, veio meio que aquela coisa de “alguém vai ter que me conhecer pelas coisas que eu escrevo e eu não tenho ninguém para fazer por mim”.

E a partir daí, com o lado poeta assumido, não parou mais de escrever...

Não parei mais! Na verdade, eu nunca parei. A grande questão é que eu não tinha esse... esse... eu acho que não tenho até hoje esse feeling pra recitar. Principalmente as coisas que eu escrevo.

Sei. Mas agora a faceta do poeta é que coexiste com o Eduardo H Martins?

Exato. Está aí até hoje. Adormeceu durante um tempo, mas está aí! Apesar de até hoje, eu achar que as coisas que eu escrevo foram feitas para serem cantadas. Mas, hoje em dia eu consigo declamá-las. É muito complicado, porque eu... acho que isso acontece com todos os poetas, pois a partir do momento em que você abre aquele caderno de manuscritos pra alguém, acho que você está mostrando a sua nudez. A nudez de sua alma. A nudez de seu interior. Então, pra mim, hoje isso ainda é muito complicado. Tem muitas coisas que eu escrevo que eu não saberia recitar, coisas que eu não saberia como explicar... Inclusive tem uns tapas na cara que tomo até hoje ao pegar um caderno, uma coisa antiga, e ver que isso hoje em dia parece uma premonição e não uma poesia. Coisas que aconteceram em minha vida...

Que acaba ficando implícito no passado e volta como num looping, né?

Exato.

É acontece com nós poetas (risos).

Exatamente (risos).

E quais foram os escritores que despertaram em você a paixão pela poesia?

Ah, isso é muito fácil... Er... comecei ouvindo... Ih! Ouvindo? (risos)

Rapaz, olha que só estamos tomando café, hein! (risos)

Verdade! Bem, eu comecei com os clássicos que foram Augusto dos Anjos, Álvares de Azevedo... mas nesse caso, o meu divisor de águas na literatura foi o Fernando Pessoa.

Quer dizer que o Fernando Pessoa foi o seu mestre?

Não sei se isso é bom, ou é ruim (risos). Mas ele, a obra dele deu criação a outra, pode ter certeza. Assim, desobstruiu muita coisa a minha visão de ver as coisas, a minha forma de ver o mundo... O Poema em Linha Reta, acho que foi até o ”pior” de todos!É muito humano, é muito pessoal. A minha obra, a minha literatura, os meus poemas, são muito assim. Eu gosto de falar sobre as pessoas, eu gosto de falar sobre sentimentos. É muito bom você ler sobre outras coisas, falar sobre outras coisas, mas eu, Eduardo, gosto de falar de sentimentos.

É como diz o lema de seu blog, certo?

Vida, arte e... e...

Seria transtorno? (risos)

Nem eu me lembrava (risos)

Esse café ta foda! (risos) Mas sobre a questão de escrever sobre sentimentos, me diga, qual o sujeito, qual o eu poético que você encarta na sua poesia na hora da concepção? Por exemplo, antigamente eu mesmo dizia criar alguns personagens a partir de observações do meio e do cotidiano para escrever, o que na verdade era uma grande mentira...

O poeta é um fingidor!

Exatamente. Mas e quanto a você? São todos os seus transtornos expostos em sua poesia?

As vezes eu me apodero dos transtornos alheios, também. Eu gosto muito de ouvir as pessoas. Então, isso me ajuda bastante, eu tento entender essa... o que está na mente das pessoas, o que faz que elas tomem determinadas posições sobre determinadas situações, e eu canalizo isso. Mas eu gosto mesmo é de escrever na primeira pessoa. É muito por aí, eu me sirvo do sentimento alheio. Tem muita coisa que sou eu, mas as vezes eu misturo coisas minhas, sentimentos meus com sentimentos de outras pessoas. Então, er... mas eu gosto de me colocar nesse lugar, como se o sofredor fosse eu. Como se o poema se restringisse a mim. Eu gosto disso.

Você tem produzido bastante como poeta, tem escrito muitas poesias?

Não como eu gostaria.

E como você gostaria de estar produzindo?

A gente sempre quer escrever mais do que a gente está escrevendo. A gente sempre quer falar de muitas coisas. Tem uns temas que estavam me perturbando, então a gente acaba exorcizando algumas coisas, algumas sensações, algumas emoções... eu pelo menos, em termos de poesia, eu escrevo e deixo lá. Daqui a um tempo eu vou lá e olho. De repente, ela fica, de repente ela vai para algum lugar. Mas eu... isso é uma outra coisa que eu gosto de fazer. Pois eu não gosto que uma idéia me incomode, ela tem que sair da minha cabeça e ir para algum lugar, e ela vaia para ali!

Nem que seja um fragmento, né?

Nem que seja um fragmento, mas eu não gosto de fragmentos. Eu gosto de... eu fico... bem, eu tenho o costume de dizer que a poesia surge de uma idéia. Se essa idéia persistir por mais de três dias, ela vira poesia, ela vira conto, ela vira o que for. Mas ela só vai se tornar uma coisa se ela permanecer na sua cabeça por mais de três dias. Algumas pessoas tem esse hábito de pensar e já jogar [no papel]. Eu mesmo já fiz isso durante muito tempo, mas quando eu penso e jogo, normalmente eu vou lá e mexo. Mas quando ela permanece aqueles três dias, ou uma semana, ou até um mês, ela vira uma coisa melhor, modéstia à parte.

No seu caso, a poesia tem que ter, então, um tempo de maturação?

Exatamente. Ela está ali, ela está na incubadora, ela está se fortalecendo para se tornar uma coisa melhor que um fragmento. É uma espécie de masturbação mental, ela vai surgindo, a gente vai brincando com a idéia, o fragmento vira uma idéia, a idéia dá uma razão a um sentimento, daí ela sai. Normalmente quando ela sai assim, ela sai muito melhor do que escrever um fragmento e dali partir para o que for, conto, poesia e tudo o mais.

Já pensa num livro?

Idéia de livro? Uhum! Eu tenho a idéia de um romance que está me perturbando há um ano. É um romance que trata sobre um personagem que a partir de um momento em que ele toma uma decisão na vida... er... tudo muda... a intenção é mais ou menos essa, o nome do romance será “Do Outro Lado da Rua”. A partir do momento em que ele resolve atravessar pro outro lado da rua, a sua vida muda. Na verdade, seria uma menção a essa coisa de decisões, de você ter que tomar decisões, escolhê-las, sendo elas as melhores ou não. Eu tenho o costume de dizer que eu não tenho muito orgulho de todas as decisões que eu tomei na minha vida. Mas eu tenho orgulho de ter tido as decisões que eu precisei tomar na minha vida. Eu tenho orgulho de ter uma história, de precisar tomar essas decisões. Posso não me orgulhar de todas elas, mas me orgulho de tê-las.

E poesia? Algum plano já para um livro de poesia? Afinal, você já tem bastante coisa escrita e já tem gente te perturbando por isso...

Tem gente sim, me perturbando! Vossa pessoa, inclusive, né? (risos)

Eu não sei de nada! Mas diz aí!

Bem, idéia... sempre tem, né? Sempre tem alguma coisa pra acontecer... er... eu estou pensando de até o início do próximo ano, de 2011, dar seqüência nisso, num livro de poesia. Não sei se vai sair antes do romance, mas... as coisas vai acontecendo. Eu vou deixar as coisas acontecendo, até porque estou numa fase de muitas pretensões artísticas. Estou me envolvendo cada vez mais, nisso.

E tem a fotografia também, não é?

É. É uma das minhas paixões! Eu tenho a idéia de um livro que trabalhe a fotografia e a poesia. Sei que tem muita gente que já faz isso, de casar uma imagem com um poema. Mas será uma imagem minha com um poema meu. O poema vai explicar a imagem e a imagem vai definir o poema. Essa coisa é difícil, você casar uma imagem com um poema. Eu tenho poemas que eu tenho imagens na cabeça. Não sei nem se eu vou conseguir fotografar esse poema, ou explicar essa imagem. Mas... eu vou tentar, vou tentar. É um projeto que... é uma outra coisa que eu já estou pensando durante muito tempo. É mais uma idéia que me incomoda há muito tempo.

Quer dizer que você é um homem atormentado pelas suas idéias (risos).

Muito, muito atormentado (risos). E elas estão guardadas há muito tempo. Então resolvi colocar tudo pra fora. Tem uma hora que, eu não sei... se o mundo vai me agradecer ou não (risos).

Mas, porquê? O artista tem que simplesmente criar e “ponto”.

Eu sei, mas eu não sei se as pessoas vão gostar. Foi isso que eu quis dizer.

Não esquenta, o artista quando incompreendido será um dia honrado pela posteridade.

É... é... eu espero não ter que esperar uns cinqüenta ou cem anos para ser compreendido, né? (risos) Nem tenho a pretensão, mas... para me tornar tese de mestrado de alguém (mais risos) ou coisa parecida... mas enfim, eu também não peço muito. Só que as pessoas me leiam, gostando ou não. Que venham as críticas!

Fazendo um pouco de “universo umbigo”, falemos um pouco sobre a Taverna, o que é o Uma Noite na Taverna para você?

Eu acho que não tem melhor palavra para definir a Taverna do que “casa”. Pra mim, a Taverna é minha casa. Desde o início, eu participei e acompanhei as idéias iniciais do projeto, eu me lembro que você eu já conheço há bastante tempo, mas o Rodrigo eu conheci através dessa idealização da Taverna. E eu adorei ver esse filho nascendo, adorei participar da criação e adorei ver a criança correndo... e a criança está crescendo!

Crescendo nervosa! (risos)

Está ficando nervosa, ficando abusada, ficando revoltada... Hoje em dia até quem não gosta de poesia conhece o Uma Noite na Taverna. E as pessoas vão para conhecer e acabam gostando. Eu tive a honra de estar em alguns eventos e perceber... assistir a alguns poetas novos que já são influenciados por Rodrigo Santos e Rômulo Narducci. Isso é fantástico!

Tá! Chega! (risos) Rapaz, me diz aí, e a arte em nossa cidade? Como você vê a arte na cidade de São Gonçalo?

Hoje eu vejo arte em São Gonçalo! Há 6 anos e pouco atrás eu não via arte em São Gonçalo! É por isso que eu digo que eu chamo a Taverna de minha casa, porque eu vi esse filho nascer, vi essa criança crescer e antes você não tinha nada disso. Era uma casa vazia, sem brilho, sem alegria. Ainda é uma cidade dormitório!

E o que você acha que precisa para mudar isso? Esse quadro de cidade dormitório?

As pessoas deixarem de olhar para os seus próprios umbigos! Porque quando aparece algum projeto “cultural” em São Gonçalo, a pessoa está mais preocupada em autopromoção. Então, faz um, dois, três eventos... e a pessoa está preocupada em falar sobre coisas particulares do que sobre cultura de verdade. Eu acho que é por isso que a Taverna deu tão certo. Porque é um evento multicultural. Não é como você falou de universo umbigo. Eu tenho consciência de que eu estou aqui hoje, por merecimento. Mas eu também acho que tem algumas pessoas que não teriam onde fazer isso e a Taverna abriu as portas para essas pessoas, elas sendo boas ou não. Então, a partir daí você vê, quem é bom ou não. Quem tem alguma coisa para mostrar ou não. Tem pessoas que já se apresentaram no Uma Noite na Taverna e depois sumiram. Voltaram para suas vidas e tudo mais. Diante de um momento que elas viram uma oportunidade de aparecer... de... criar alguma coisa, só que não souberam dar seguimento a isso. E, enfim, eu acho que artista não tem que se preocupar com a imagem, a sua imagem, como eu já disse antes, a partir do momento em que eu mostro um manuscrito para uma pessoa eu estou tirando a minha roupa, a partir do momento em que eu declamo os meus poemas eu estou abrindo o meu peito. Então, isso é muito difícil, mas ao mesmo tempo gratificante. Não porque as pessoas aplaudem, não porque as pessoas estão gostando, tem muita gente que não gosta, a gente sabe disso, tem muita gente que não presta atenção e no final da história bate palmas. Mas também, tem muitas pessoas que saem de lá e olham na sua cara e dizem que você pode não ser bom, mas sabe o que dizer. É mais ou menos por aí. Minha poesia não vai mudar nada! Não vai mudar o mundo! Não vai mudar a cabeça de uma, duas ou três pessoas, mas a partir do momento em que essa pessoa presta atenção em alguma coisa que eu escrevo, isso é gratificante.

Cada poesia para um poeta é como um filho. Eu sei que é difícil escolher entre elas, mas cada um tem alguma poesia que marca a sua obra. No seu caso, qual a sua poesia que você considera dessa forma?

Tem uma que é sem título, inclusive. Ela fala sobre hipocrisia. Ela fala sobre uma coisa implícita... você faz ou não o que quer, na frente de quem você quer ou não... e ela termina simplesmente assim: “Talvez os meus amigos estejam bêbados de mais para conversar.” É mais ou menos, por aí. Estou cansado de tapinhas nas costas. Um olhar diz muito mais do que um tapinha nas costas. Essa poesia fala sobre isso.

Eu a conheço! Com certeza vai recitar nessa Taverna [hoje mais tarde], né?

Eu não pensei, não, mas agora... (risos) Tem algumas outras que eu gosto, mas eu acho que essa é o grito de foda-se e... aquela coisa da idéia que ficou martelando, martelando... e quando ela saiu, já estava pronta. Nela eu não mexi nenhuma palavra... foi! Tenho outras, mais ou menos na mesma linha, mas essa foi uma das primeiras... tem também o “Poema Mudo” que eu gosto bastante também, inclusive eu ouvi de uma pessoa que disse que isso é muito sério, tipo se eu estava falando sério mesmo quando eu escrevi isso. Sim, no caso do “Poema Mudo” eu quis dizer exatamente o que está escrito ali.

Está no seu blog, né? Qual o endereço de seu blog?

É www. eduardohmartins ... er...

Seria blogspot? (risos) Esse café, hein!

Esse café está maravilhoso! (risos)

E pra Taverna do dia 12? [que aconteceu na última sexta] O que você está preparando para recitar? Algo que está em seu blog, já que falamos de seu blog com a pausa do café? (risos)

Eu tenho alguns poemas novos que eu vou recitar. E não esperem nada muito bonitinho... porque como eu já disse antes eu estou cansado de muita hipocrisia, muito tapinha nas costas, muitas caras-e-bocas, vai ter um que a intenção não é querer chocar, mas deixa no ar uma mensagem em relação a pose! Postura! Muito sorriso, muito... eu tenho também um poema que fala sobre as expressões de um sorriso. Nem sempre são os melhores. É sobre alguém que substitui algumas respostas por um sorriso. Nossa, esse deve ter uns cinco anos e continua sendo atual. A coisa do looping que você falou antes. Na verdade, eu creio que seja um desabafo em relação a tudo isso. Só não esperem coisinhas bonitinhas, é por aí.

Mas quem espera coisinhas bonitinhas na Taverna? Então, Eduardo, quero dizer que foi um prazer em receber você aqui na minha casa... são exatamente 1h da manhã, estamos entrando no dia de Finados... enfim, baterista, poeta, fotógrafo, designer...

Designer gráfico! Senão daqui há pouco tem gente me chamando para fazer decoração! (risos)

Tá certo! E também um pensador, um tavernista que carrega e tremula alto a nossa bandeira! Para finalizar, vamos a minha pergunta clichê, o que você gostaria de falar para o pessoal que vai estar na próxima Taverna [como já dito, o evento ocorreu na última sexta, dia 12/11]?

Bem, a Taverna é feita de público, de poetas, músicos e de admiradores, enfim, eu acho que já que a pessoa está ali, que não vá para conversar, que preste atenção no artista que está ali. Tanto no músico, quanto no poeta, porque a pessoa que está ali na frente está ali para se expor de alguma forma, ela precisa. Se a pessoa está se expondo, eu acho que o público poderia considerar mais isso. É isso, que as pessoas continuem indo, não só para beber vinho, mas para prestar atenção. As vezes você vê um quadro na parede e vê que as pessoas passam umas quinze vezes por ele e não olham. Lembrando que tem um artista plástico que pintou aquilo, que teve uma pessoa que se preocupou com a idealização daquele quadro. Não custa prestar atenção. Até porque cultura não é desperdício, não é perda de tempo, e a arte é sublime. Você perder uns cinco minutos conversando com o artista para saber porque ele pintou o quadro ou escreveu aquela poesia. Isso não é desperdício, nunca!

Evoé, meu caro!

Evoé!



Conheçam o trabalho do poeta no blog:

http://eduardohmartins.blogspot.com/

Entevista: Romulo Narducci.

Fotos: Beatriz Peixoto, Romulo Narducci e Eduardo H Martins.

Edição feita ao som de Smashing Pumpikins (Adore), Symbolic Immortality ( Yogan e Perpetualis Sacrificalis) e Moonspell (Darkness and Hopes) acompanhado de uma garrafa de vinho alemão Josepf Drathen, tipo "Liebfraumilch" (presente de Rod Britto na Taverna).

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Reedição da Entrevista histórica com Pakkatto

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Pakkatto é sem dúvidas uma das figuras artísticas mais interessantes de São Gonçalo. O tavernista é músico, poeta, escritor, DJ e grande conhecedor da arte no geral. No dia 09 de julho, mais uma vez o multi-artista, carinhosamente apelidado por Romulo Narducci de "O Trovador Tavernista" irá se apresentar no Uma Noite na Taverna e a partir de agosto, mês em que o evento homenageará a Sociedade Epicuréia, irá passar a protagonizar como poeta residente.
A idéia era entrevistá-lo novamente para o Manifesto Tavernista. Mas como a versão anterior desse nosso blog foi invadida e apagada por hackers (fato que nos deu uma baita dor de cabaça, pois tivemos que recomeçar do zero), foi-se embora também muitas matérias importantes, inclusive a entrevista com o Pakkatto, feita pelo tavernista Romulo Narducci em sua antiga residência, em agosto de 2009. Porém, por sorte, os arquivos da entrevista estavam guardados e achamos importante voltar a registrar essa conversa maravilhosa com o nosso trovador tavernista.

ENTREVISTA COM PAKKATTO


Entrevista realizada por Romulo Narducci em agosto de 2009.

Como o Henrique Santos tornou-se o Pakkatto?

- Bem, Pakkatto como poeta, só surgiu para adequar o apelido ao que eu já fazia desde os quinze anos, quatorze anos e tal. Eu nunca comecei lendo poesia. Comecei lendo prosa mesmo, fazendo prosa. Fazendo prosa, fazendo coisas em cima de ficção científica mesmo. Isso eu escrevia desde muito cedo. Fazia aventuras, tipo saga, tinha essa literatura de quadrinhos, uma coisa maneira que desde cedo eu tive a coisa de ler muita prosa. Machado, pô... devorava Machado, era o meu escritor preferido. E quando eu li pela primeira vez o Fernando Pessoa, aí é que a porta se abriu, assim. Porra, Pessoa foi o cara que eu li de cara!

Foi o momento em que se introduziu a poesia?

- É. Eu comecei lendo Fernando Pessoa. Porque o heterônimo... o mais racional... é o Álvaro de Campos, né? Aí eu comecei logo por esse cara. Pô, esse cara que foi... porque o que acontece, eu já tinha uma formação voltada para a matemática, física, ciências exatas, e tinha sempre interesse por filosofia, que fazia parte da minha leitura também. E calhou de eu estar lendo na época, por curiosidade mesmo, porque um autor vai citando o outro, aí comecei a ler Hegel que falava do Kant, lia Kant porque o cara falou, não entendia porra nenhuma, só lia.

E daí ia buscando as referências?

- É. Tinha aquela coisa que, pô - isso é uma coisa engraçada - que o Manuel Bandeira falava: se alguém escreve versos e não te mostra, é por vaidade. Se ele mostra, também é por vaidade. Então eu fazia versos naquela de sacanagem, mesmo. Tipo, tinha facilidade de fazer rima, na verdade sempre escrevi com rima, coisa para impressionar garota, como qualquer adolescente fazia.


Restaurante do SESC, Taverna de Junho de 2004.
É assim que nós sempre começamos, não é? (risos)
- É, pô, fazia um soneto... pá, caraca! Só que aquilo não me... Eu achava maneiro fazer um poema para impressionar a menininha, pra sei lá, conquistar a menininha, fazer ela sorrir, mas achava legal também falar o que eu pensava, o que eu sentia. E quando bateu o Pessoa, eu falei “caraca, maneiro!” O cara tem um questionamento, como questionar o mundo e fazer um verso. Que é uma parada extremamente pessoal e que repercute. Dá uma ressonância, que é uma coisa que eu tenho, é assim, em toda essa minha loucura eu tenho esse conceito de ressonância, assim, quando você pensa numa banda, quando você pensa que aquilo bate em você, pode ser até estranho, pode ser um heavy metal, pode ser um samba, pode ser um pagode, pode ser funk, pode ser que porra for, se ressoar, se passar uma mensagem e se você parar um segundo que seja e o cara falar: caraca, o cara sentiu a mesma parada que eu senti! Ter o mesmo questionamento que eu e você, naquela hora você não está sozinho. Naquela hora, er... volta naquilo que eu falei da filosofia que é aquela coisa que ninguém explica você como ser humano.
A arte tem dessas coisas.
- Exatamente. É a arte que, pô, separa a gente dos outros animais. Não é outra coisa, assim. É a razão? É, mas não é só isso. É a arte que vai fazer você criar a partir das suas experiências. É quando você sente o mundo, que você transforma e colocar em formas e tal. Eu comecei escrevendo... fui escrevendo e tal, migrei para poesia, comecei a escrever coisas que eram até cópias na verdade, meio que...
A poesia veio com quantos anos, mais ou menos?
- Eu tinha uns 15 ou 16 anos. Daí, junto com isso, tinha a coisa musical. Muito engraçado, gostava da música e da literatura. Eu lia ficção científica, quadrinhos, aos 15 anos. A ficção científica e quadrinhos eu já até estava parando de ler, porque eu já via desde os 8 anos, véio, porque de Mônica eu passei para a Marvel, eu li a saga de Thor toda e tal. Daí, pô, música: Titãs! Arnaldo Antunes é um cara que eu gosto pra caralho! Porque eu já ouvia Arnaldo Antunes desde a época dos Titãs. É foda, tem o disco "O Blesq Blom", e eu já começava a escrever ali coisas que eram versões na verdade daquilo que eu tinha visto. Fazia várias versões de músicas, coisas que eram até quase um plágio cara (risos), eu não me sentia nem muito bem com aquilo. Daí eu ficava pensando, como é que eu vou fazer? Já cheguei até - esse caderno eu não encontrei de novo -, mas acho que por influência dessa coisa muito nacional, tentar calçar uma parada organizada, esquematizada, eu sempre pensei nessa coisa: eu tenho que, pô, er... olhar de fora, tentar entender o que eu estou fazendo. Você sabe que tudo é balela, daí eu descobri, quando eu comecei a ler poesia, descobri duas pessoas que se tornaram dois mestres, assim, em termos de escrita. O primeiro, eu tive uma grata surpresa, foi o que me libertou, foi o Mário Quintana. Achei essa parada de fazer poesia simples, foda! E Manuel Bandeira. Manuel Bandeira tem poesias do caralho! Os escritos dele sobre arte são espetaculares, tem uma erudição fodida, mas ao mesmo tempo quando ele escreve, ele se considera um poeta menos. Ela fala assim: “na boa, eu só consigo falar isso, né... eu posso saber, eu posso...” Daí, eu me identifiquei com isso também.

Com o poeta Romulo Narducci, poesia musicada por Pakkatto. (junho 2004)

Ele transmite sua poesia de uma forma bem simples, né?

- Mais simples, é uma coisa mais direta. Sem muita complexidade. Daí, eu encontrei depois Drummond, aí foi a síntese daquilo que eu queria. Podia abandonar a rima. Eu podia voltar na rima. Aí, os dois grandes mestres que quando eu conheci passei a escrever bastante, fiz os meus dois cadernos de poesia... foram Drummond, mesmo. Eu tenho até vários poemas de política literária, consumo imediato, são referências caras ao Drummond. Tenho um poema que eu fiz, “Alguns Poemas de Um Poema Lutador”, que são uma homenagem ao Drummond explicitamente. Quando eu fiz esse poema, eu estava influenciado por ele fortemente, li “Rosa do Povo”, “Antologia”, e li também aquele poeta da Paraíba, que escreveu “Eu”, o Augusto dos Anjos. Que também volta naquela para da que eu falei.

E projetos? Algum projeto para escrever um livro de poesia, ou de conto? Já tem algo no forno? Eu sei que você tem bastantes materiais.

- Bom, a maior parte do material está disponível – o que eu fiz mais nessa fase entre os quinze e os vinte e cinco, eu escrevi bastante, eu tive morando em São Paulo, e nesse período, dessa fase, eu tenho publicado num domínio que eu tenho da Geocities, que eu até vou colocar no meu blog. Mas algumas coisas novas que eu também fiz estão no blog. Quando eu comecei escrevendo assim mais sério e tal, eu logo pensei em sagas, né, aquela coisa mais temática, que era automático. Isso foi se perdendo porque eu começava a fazer realmente poesia quando eu me tocava e depois eu escrevia. Não pensei sinceramente em organizar nada num livro, embora até queira e tal mas eu ainda penso em amadurecer alguma coisa, er... nesse sentido, durante muito tempo também eu estava voltando pra fazer música. Música minha.

Opa, vamos chegar lá! (risos)

É, coisa, que... coisa que eu não deixei num ponto de maturação que eu queria, mas não abandonei a escrita, mas essa coisa que eu tinha antes de organizar essas coisas em livros... eu tinha mais livros, eu tinha, eram na verdade uns três livros. Um era o "Poemas Desconexos", o outro era o "Boas Razões para o Suicídio", que acabou só ficando a música e o outro livro... deixa eu ver se me lembro... foi logo no início, que era... sei lá, era um outro livro, eu não me lembro mesmo, é coisa bem antiga, bem antiga.que era sobre o tempo, eram poemas sobre o tempo. Faz parte dos meus poemas perdidos. Se eu ficar famoso e morrer um dia quem achar esse livro vai ficar milionário (risos). Mas pô, minha mulher deve ter guardado ou queimado isso, não sei. Er... tem esses poemas perdidos aí que, eu boto... é o Tempo, Boas Razões Para o Suicídio e Poemas Desconexos. Hoje em dia, na verdade eu estou até mais preocupado em dar vazão mesmo aos contos que recentemente até republiquei, tem as Histórias Cariocas, foi meu último post aí, no meu blog abandonado (risos).

Qual o endereço do seu blog?

- [ http://www.pakkatto.blogspot.com/ ] É só botar Pakkatto no Google, mas ninguém... É Pakkatto com dois K e dois T! Pakkatto é apelido!

Como surgiu esse apelido?

- Veio de faculdade, né! Apelido é aquela coisa que você tem que botar na cabeça, que apelido quando você gosta, não pega. Então, Pakkatto é aquele apelido que eu tava recusando e tal... e teve uma porra, uma palhaçada lá de He-Man, aí me escolheram para ser o Pakkatto, aí fudeu! (risos) Aí tive que ficar com esse apelido de Pakkatto. Eu falei assim: cara quer ver, eu vou capitalizar esse negócio. O pessoal já me conhecia por Pakkatto, a banda do Pakkatto... Quando eu toquei pela primeira vez eu, quando eu toquei eu já estava aqui no Rio, eu já tava fazendo música, assim, quando eu vim em 96. Então eu já tava querendo aprendera a tocar violão e tal, até hoje eu não aprendi , mas eu continuo fazendo. Eu sigo aquela máxima da música dos Titãs que “Eu não sei fazer música, mas eu faço! Eu não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto! Eu não tenho certeza, mas eu acho!” Então eu vou lá, caio dentro e vou fazendo. Então eu fiqui conhecido e tal... “Pô, o Pakkatto toca violão, toca as músicas dele...” E as música que eram... pô, as músicas também estão lá no meu site pessoal e tal, tem o link lá, que tem o Geocities... Vai acabar até o Geocities, né? Mas ta lá, essas músicas eu fiz nesse tempo. Mas pra cá, eu fiz a Playmobill Killers e tal, sempre a mesma coisa, por Pakkatto, aí tal. Teve até um papo bem no começo da Taverna que era de montar a Pakkatto e os Caramurus e tal (risos). Essa parada do Pakkatto ficou forte, mesmo, assim, não teve jeito, tem muita gente que se ouvir falar Henrique, também conhece,Eu até faço questão de botar Henrique Santos...tem que tirar o Silva, não é para criar nenhuma desavença com o Lula, não (risos). Não é para dizer que eu sou parente do Rodrigo, porque cunhado não é parente (risos). Mas é, pô, sempre... do ponto que eu até parti - a gente já teve essa conversa antes -, eu escrevo é mais para ser lido, mesmo. É para despertar na hora em que o cara quer, uma reflexão em cima daquilo que está sendo ouvido, que se ressoa. Então eu não estou pensando em – voltando á sua pergunta – em fazer um livro agora.


Pra você isso soa muito comercial?

- Não, não, ainda não tá valendo a pena, assim, quando tiver uma coisa que eu sentir assim, pô, agora eu vou. Não é nem... pegando muita coisa que eu escrevi, que eu gosto de vários poemas. Tem poemas que eu gosto de graça, que eu acho que nem terminei na verdade. Tem o “I, I, Sir” que é um poema que eu fiz para um amigo meu em cima do post de um blog, eu fiz um poema, assim, escrevi um negócio que achei lindo. Que é... como é que é? “Alguns homens só viajam, algumas...” agora eu não lembro direito, mas é um poema que eu adoro! E eu acho que ainda nem terminei, entendeu? É um poema que está lá e tal, mas as vezes está terminado. Eu gosto muito desse poema, eu gosto muito do poema que eu fiz que eu te ganhei uma... que é um poema que eu fiz quando tinha dezessete anos, ou dezesseis anos. Que alguns poemas... tem o poema O Lutador que é uma homenagem ao Carlos Drummond. Já recitei ele várias vezes na Taverna, er... tem um que recentemente li e me surpreendi, porque achei ótimo, que é... até postei no A Corja*, que é um poema que tem uns cinco anos de idade que é um... É uma oração na verdade, é o “Estrela da Manhã”. Acho aquele poema, porra, maneiro, assim... porque é uma coisa engraçada de como eu escrevo, tem alguns poemas da minha fase madura que são depois dessa coisa de ter escrito muito, assim, escrevia, eu escrevo todo dia! Já joguei muita coisa fora, tem uma coisa que aconteceu...

Que pecado, rapaz... Jogar poesia fora!

- Mas pois é, eu tinha essa mania, que depois eu me arrependi, é claro! Eu peguei muita parada e queimei mesmo! Queimei, cara! Queimei! “Cara não gostei, vou queimar!” Queimei mesmo! Outros a minha mulher rasgou! (risos)

Não vou nem perguntar o porquê, tá?

- Pois é, eu quis matá-la! (risos) Mas, tudo bem! Com essa fase do rasgado eu, porra, achava que aquilo ali não era mais representativo. Tinha muita coisa que eu tinha uns 15 anos. Mas eu guardei várias paradas! Tem várias coisas que, por exemplo: “Minha inconstância / Sofro e sorrio confuso em um lado / Ei, de encontrar minha inconstância / Sorrimos ou sofremos / Nós somos exatos / Vejo repetir-se minha infância / Minha consciência desnuda em atos...” E por aí! Eu escrevi isso, porra, não tinha nem idade. Eu fui recitar e, pô, estava lá guardado! Que é uma coisa também, é uma garrafa que você joga para você mesmo depois. Que se escreve, aí quando você lê de novo, você fala: “Caraca, eu tenho salvação! Pô, eu acredito em mim mesmo!” Tipo assim: “Eu já pensei isso aqui!” É uma forma de manter a coesão, né? Porque dizem, né, que a gente se renova, que o cérebro se renova e tal, e que pouca coisa fica. Das emoções, do relacionamento, da vida e de nós mesmos... Isso é mais complicado, porque a gente muda de idéia, a gente muda de lugar, de vida, de pensamento... Pô, um dia eu... tipo: “hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou.” Então, porra, quando você olha para um texto teu, a gente nem se reconhece mais, não é? Essa ponte que você faz consigo próprio, ela não tem valor, cara! Porra, ela é inestimável! Assim, você recupera quem você é naquele momento em que você vai lá! Às vezes você nem consegue ir lá e você vê que isso te dá uma dimensão absurda do que é o ser humano mesmo. Do que são os outros, né? Você diz assim: “Caraca, bicho! Porra, quem eu era naquela época? O que é que eu estava pensando?” Não que aquilo valia ou que não vale mais. Isso nem interessa mais. Parece que você tem lá um retrato teu que você pode ir buscar, um retrato sentimental, um retrato intenso que naquela hora você nem achou tão legal assim.


Uma Noite na Taverna, setembro de 2004.

A poesia tem essa vantagem porque ela mostra realmente as metamorfoses que nós sofremos, a poesia vai retratar os períodos de cada um que a escreve, períodos de vivência e de influências também, não é?

- Exato! Você falou tudo! Influência é tudo! Quando eu comecei a escrever mais maduro e estava escrevendo coisas até mais introspectivas e até depressivas... É aquela coisa que até o Rodrigo me intitulou como o “guerreiro covarde”, aquele cara que está com a espada na mão, não sei o quê, mas tem pena de decepar a cabeça do inimigo. Sabendo que o cara é inimigo, né? Eu não encaro muito assim não, eu até estava refletindo sobre isso recentemente. Que, pô... não é muito isso! Faz parte das minhas influências. Quando eu ouço o Pink Floyd, e hoje eu tenho uma dimensão até maior de música, mesmo, quando eu ouço uma música eu quero saber o que o cara está falando. Eu ouço, por exemplo, Queens Of The Stone Age, ouço o poema “Go With the Flow” – eu até fiz uma versão dessa música –, eu... cara, que poema espetacular! Eu fico procurando os poemas. Se eu ouvir um negócio em aramaico e não sei o quê, e fico querendo saber o que o maluco está cantando, caramba! (risos) E vou lá ver e é um poema maravilhoso, sabe? Aí eu quero o quê? Aí eu quero fazer isso com o meu poema. Eu quero dar musicalidade de modo de que o cara quando me ouvir declamando, sei lá... porque essa é que é a parada! O cara vai me ouvir e vai falar: “Caraca, o que é que esse maluco está falando? Porque eu gostei da melodia!” Porque, também comunica. É aquela coisa da ressonância. Pô, quando tudo casa, porra, é perfeito! É o disco Ten, do Pear Jam! É o Sargent Peppers, um Revolver dos Beatles – Beatles tem várias ondas -, é um Pink Floyd, com o Dark Side [Dark Side Of The Moon]... É isso que eu estou buscando, com esse grau de excelência. Eu estou querendo esse grau de excelência para poder comunicar as pessoas tudo o que eu quero comunicar, em todos os aspectos. O cara chegar e... o ideal é ele nem entender o que está se passando. Ele pode nem entender, mas ele vai sentir alguma coisa. E nessa eu vou pegar ele.

De repente a pessoa vai entender até depois.

- Exatamente, é isso que eu quero! Quero que ele se debruce sobre o poema. Eu não quero dar um poema fácil. Essa é que é a parada. Aí, volta naquela coisa que eu gostava no início, a questão do resgate. Porque, a complexidade que eu achava boa depois foi destruída com Mário Quintana. Na verdade eu descobri que Mário Quintana é mais complexo do que eu imaginava. De uma forma sutil, uma forma lírica, bonita, assim. É você poder comunicar, criar tanto estranheza, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer por causa daquela coisa do protesto mesmo, aquela herança Punk, que eu acho que é o punch do Rock mesmo, que é fazer as pessoas pararem para vibrar e para mudar. Mas não só isso, mas como também aquela coisa da tristeza introspectiva que rola, cara. Todo mundo com um sonho novo e diferente é derrotado em cada esquina, em cada vez que ele liga no Jornal Nacional. Porra! Me dá uma coisa... Porra, eu sei que é legal ir para a Praça Celestial enfrentar tanque, mas eu sei que o cara que enfrentou o tanque morreu, velho! É complicado! Você controlar as pessoas ao suicídio coletivo, contra o sistema. Então, eu estou fazendo como Drummond falava. Eu estou igual a um verme, eu estou comendo o sistema por dentro! Eu estou aqui e tal, beleza, trabalhando... mas eu não concordo e quero que as pessoas vão acordando, porque sozinho não dá! Isso aí, não tem como. Então o meu papel é meio assim que eu... é de não deixar a chama morrer dentro de mim, é a chama que eu tenho desde os 15 anos na época do mesmo cara que escrevia ficção científica. Então, porra, se eu não acho certo eu não vou assinar embaixo. Eu não quero criar muvuca e não vou criar ninguém pra fazer isso. E pô, ao mesmo tempo dá tristeza de saber que passou tanto tempo desde que eu tinha 15 anos, cada vez o tempo vai passando mais e as coisas vão ficando cada vez mais difíceis. As pessoas vão ficando mais alienadas! É bunda music! É poeta pasteurizado! É filósofo da moda! É livro de auto-ajuda alçado a Best seller! Sabe, é complicado!


Uma Noite na Taverna, fevereiro de 2006 (Jardim da FASG)

E falando um pouco de música, já que tocamos várias vezes no assunto, como veio a música na sua vida?

Então, música é o seguinte, música eu sempre ouvi! Inicialmente eu não tinha nada definido e achei sempre legal que os meus amigos trazem coisas, assim... Grandes amigos meus, me influenciaram porque... não porque eles gostavam da mesma coisa que eu ouvia, mas porque eles ouviam coisas diferentes do que eu ouvia. Não por aquela busca do novo, mas é porque eu queria realmente entender e sempre tive essa curiosidade de saber sobre coisas diferentes. Então, pô, o meu primo ouvia Pink Floyd, que eu comecei a ouvir e tal... depois de muito tempo comecei a ouvir Beatles e música brasileira. E com a música foi engraçado, porque eu comecei a fazer música porque eu não queria estragar a música de ninguém. Então eu falei assim: “Vou fazer! Como eu toco mal e não preciso dos outros eu vou tocar as minhas músicas!” Minha irmã tocava violão, era quase autodidata, tinha alguém que ensinava a ela, até em função de igreja, e tal, ela tocava na igreja. Ela tinha um violão em casa daqueles Tonante com corda de aço! Era cinza, lindo! Ele tinha um som estridente, então até hoje eu, pô, tenho esse defeito de tocar para os amigos... errr... se você me der um violão eu vou tirar dele o som mais alto que ele tiver! Vou espancar a corda! Isso aí eu tenho que perder até um pouco, dizem os meus colegas músicos de que eu vou ter que perder essa tara de espancar a corda do violão. Então, é herança do Tonante, do maldito Tonante que abriu as portas da música para mim. Então, pô... eu tocava Soundgarden, versão de Rage Against Machine e tal, daí eu falei assim: “Vou fazer minha música.” Até fiz uma versão, a primeira versão que eu fiz na minha vida foi uma versão de Death Metal, assim, pô, uma parada PÁ! Na verdade nem era tão Death Metal, era Heavy Metal mesmo, eu fiz uma versão de Orgasmatron. Aí botei minha... que é aquela coisa que eu falei que não tinha... sempre partiu de uma coisa que eu fazendo parecia meio plágio, então eu fazia uma versão minha e encaixava uma coisa que eu falava, então eu... “Espera aí, vou adequar o que eu estou falando ao que eu estou tocando.” E foram surgindo várias coisas. Eu tenho várias músicas que eu coloquei como a Playmobyll Killers que eu fiz desde a época que eu comecei a tocar, assim, era Heavy Metal “Tcharammmmmm!” Aquela barulheira e tal. O que aconteceu? Eu descobri mais um maluco que mudou a minha concepção de fazer as paradas, que foi o Caetano Veloso. Porra, sempre que eu tenho a chance eu falo: “Porra, compra o disco Livros!” É espetacular! Que é alguma coisa que ele fez... a música “Livros” é interessante... “Tropeçava pelos astros desastrados / Quase não tínhamos livros em casa / E a cidade não tinha livraria / Mas os livros que à nossa vida entraram / Eram como a redenção do corpo negro / Apontando para a expansão do universo...” Pô, porque a frase e o enredo e o verso, a prosa e o verso, sem dúvida e sobretudo o verso: “É o que pode criar mundos no mundo...” Pô, isso aí resume! Gosto do disco para caraca! É aquela coisa da ressonância que a gente volta a falar. É a minha tese fundamental, assim, é a ressonância. E o cara falou tudo o que eu queria falar num todo. E aí fechou! Eu falei: “Caraca, eu vou fazer isso também!” Eu tenho música de protesto, errr... porra, a famigerada “Edir Perverso” que mostra todo o meu ódio contra o pecado mortal da simonia que apela às coisas sagradas...

Você tocou no palco livre do Aldeia Rock Festiva IX, certo? (Evento acontecido na Semana Santa de 2009)

- Toda vez que eu tenho chance de tocar eu toco com o maior prazer do mundo!

É a sua vertente punk, né?

- Exatamente, eu tenho que dizer isso, esse cara é um filho-da-puta! (risos) Eu tenho que falar! Tenho que apontar o dedo, sabe? Tocar e coisa e tal. Eu tenho que apontar pelo menos o dedo pro tanque, assim! Mas é só para deixar claro que eu não estou ali para fazer coro com esse tipo de coisa.

E a música Boas Razões Para o Suicídio, você chegou a dizer que era uma poesia...

- Era uma poesia que eu musiquei. Ela nasceu como poesia. Como também aquela música, como foi também... tem algumas que foram feitas na mesma noite... eu fiz “Cine” e na mesma noite, que eu estava insone, eu fiz... errr... errr... rapaz esqueci o nome da música! Ah, depois a gente lembra!


Taverna, Centro Cultural Joaquim Lavoura (fevereiro de 2007)

O vinho já chegou pela metade! (risos)

- Não, eu sempre esqueço mesmo! Como eu ia falando, a música é até um exercício de eu ficar lembrando as coisas que eu escrevo. Tem músicas que eu escrevi que eu até nem gravei, que eu compus mais recentemente, por exemplo. Eu compus uma música que falava da minha vontade de fazer protesto: “Se o país é uma bagunça / Toma parte nessa dança / Roubam doce de criança / Vão tomar seu capital / Brasileiro dou meu jeito / E não olho pro Palácio / Se me querem de palhaço / Vão me ter no Carnaval / Cantando samba de protesto / Disfarçado de alegria / Pois não há democracia / No país do futebol...” E aí vai... É mais para expressar mesmo aquela coisa da revolta. Então a canção de protesto é o que norteia assim... o que eu fiz. Mas voltando ao Caetano Veloso, é a coisa da Bossa, mesmo. Então, eu fiz várias Bossas.

Isso suavizou mais a sua face Heavy Metal?

- Na verdade, não é nem isso. As coisas caminham juntas, mesmo. Na verdade a gente soma, não tem essa coisa. A gente tem um momento lírico e um momento mais pesado. E não tinha como fazer aquela coisa romântica no esquema Heavy Metal. Eu não conseguia fazer um “For The love Of God”, do Stevie Vai. Eu não conseguia fazer um Joe Satriani. Eu até busco isso, estou buscando isso. Mas eu não tinha nem esse equipamento, nem nada disso. Então a Bossa, a música brasileira, pô, estava isso rolando muito forte em mim, eu andava ouvindo – olha novamente a referência – Caetano, porra, eu fui até ao show do Caetano! Fui no Circo Voador, fui no show “O Estrangeiro”. Porra, genial! O que o cara faz, não tem preço! Tem também a Adriana Calcanhoto, gosto pra caramba! Comprei os discos dela direto, assim, gosto muito da poesia dela, até porque ela diz isso também... eu roubei essa frase dela que eu acho perfeita, que é “eu toco as minhas músicas para não estragar as músicas de ninguém”. É minha, se você não gostou, tudo bem, cara!

Eu tinha que falar... Agora, saindo um pouco da posição de entrevistador e ficando mais íntimo do entrevistado (risos), me lembrei daquela noite, o embrionário do Uma Noite na Taverna, que você chegou com um violão e uma garrafa de Balla [Ballantines] , você pegou um poema meu chamado “Antipoema” e musicou. Aquela noite foi foda!

- Aquele poema... a música já estava nele já, eu já tinha aquela música, o meu parceiro de violão se amarrou na música, pô, aquele poema é espetacular! Foi um excelente encontro aquele. É isso que eu acho maneiro... voltamos à ressonância! A gente estava ali preocupado se ia dar gente e tal [sobre a primeira taverna], mas na verdade a gente não estava preocupado. A gente queria fazer!


Aldeia Rock Festival VII, Aldeia Velha - RJ, abril de 2007.

Quando acabou o uísque veio o Rodrigo com aquela cachaça curtida em passas (risos)!

- Putz! Aquilo... aquilo é que eu acho que não prestou muito, eu fiquei meio desarranjado do estômago! (risos) Mas valeu à pena!

(risos) Mas isso é que é bacana, o lance da música, ela simplesmente flui.

- Na verdade, como eu falei, aquela música eu já tinha. Ela só estava precisando de um dono e foi um encontro perfeito. Eu já tinha aquela... aquele riff. E eu estou procurando muito isso, por exemplo, agora, eu tenho escrito... eu escrevi recentemente outra prosa. Mas é uma coisa até mais cômica. Eu gosto muito do Luis Fernando Veríssimo e tal, sei lá, veio o interesse de reescrever as estórias da Bíblia. Mas voltando ao ponto aqui, ao ponto da música, é que eu não abandonei nada da música, o que eu tenho composto - que até deixei no meu espaço da Trama, tem no meu Myspace – de eletrônico, eu procuro até uma coisa mais louca, tipo uma Rave. Eu fiz uma música que é de Rave, que é a “Time Machine”, pô... expressamente só tem duas frases na música que é “Welcome to the time machine / Enter to the time machine”. Tem até uma pausa que é um lance de propósito pro cara realmente sentir que tem um baque do tempo. Então, é aquela coisa: comunicar sempre! Pô, “Enter to the time machine” e o cara assim: “A máquina do tempo, a máquina do tempo... o que é essa máquina do tempo?” Aquela música frenética [faz com a boca som de batida de música techno] e de repente: “ENTER TO THE TIME MACHINE!... WELCOME...” Pô, bem vindo à máquina do tempo! Entre na máquina do tempo... E vamos embora! Você se destruindo lá de dançar!

Falando nisso, e o DJ Pakkatto?

- É, DJ Pakkatto! Teve até essa fase também! Recentemente a Nicole [produtora da festa JuiceBox em Niterói] até falou comigo. Aí, eu pô... tal... fiz meio um cu doce pra ela... (risos) e depois me ofereci. Aí, eu me ofereci de novo pra ela, não em sentido duplo, mas me ofereci para tocar de novo lá.

Discotecar é bom, né?

- Pô, discotecar é ótimo cara! Acho que a melhor coisa que tem é você comunicar. E você pode se valer... isso que eu tenho é um prazer de comunicar através até de outras pessoas. Então eu ouço por exemplo, “Go With the Flow” [da banda Queens Of Stone Age]: “She said I throw myself away…” “Ela disse que eu me joguei fora / Eram apenas fotos depois de tudo / Eu posso fazer você se segurar / Eu posso te lavar da minha pele...” Pô caraca! O que esses caras fazem, pô, eu tenho que botar isso, eu vou tocar e eu quero ver nego dançando isso! Eu nem sei se o pessoal vai entender, né? Tipo, um professor meu falou assim: “Cuidado rapaz, não jogue palavras ao vento porque, sei lá, o cara bota uma camiseta hoje em dia escrito Fuck me Forever e tá feliz pra caramba!” Mas pra mim, foda-se! Se o cara entender, pra mim está ótimo!


Centro Cultural Joaquim Lavoura, Taverna de outubro de 2007.

Às vezes as pessoas entendem sem entenderem, parece que é por osmose, não é?

É, alguém... cara, não é todo mundo. Eu não tenho essa coisa... Eu não tenho esse negócio de “oh, o messias!” Eu até já pensei nisso. No meu poema “Estrela da Manhã” eu falo isso. Você também tem poesias assim, porra! Eu falo isso em vários poemas, do poema... que até são dois poemas (eu tenho essa coisa da série, de um poema que joga no outro poemas e joga no outro poema... quando tiver bem organizadinho eu posso até fazer um livro), são dois poemas que são para sexta-feira, então assim... o meu primeiro poema fala da coisa de ver o mundo, aí eu estou caminhando na Av. Presidente Vargas, que tem um nome que é baseado num nome. E no outro poema eu já estou andando no meio do Largo da Carioca, vendo os caras que estão pregando e tal. E essa é uma coisa que eu acho legal. [PAUSA PARA COMER] (risos) O que acontece... (mais risos) Eu falo tanto que até perco o fio da meada! Essa ponte assim, da comunicação, quando você acha que você é o messias e sobe no banco da praça, a gente faz isso muito na Taverna. Sobe lá e não é fácil ler um poema assim. Eu até no início ficava meio bolado. “Como é que fulano não leu o poema direito?” Bom, é uma experiência legal pro cara também, entendeu? Porque, porra, na hora que ele vai ler, aí que ele vê que, porra, tem também esse canal que é de você declamar poesias. E se você parar pra pensar era isso que era feito! Aí, eu falei: “Porra, olha só, Shakespeare né, cara?” Para você vê como é, as pessoas evoluem. No início eu ficava meio bolado, até outro dia a gente discutiu isso... Assim, “vamos tentar falar com os caras para ensaiar e não sei o quê...” No início eu pensava seriamente isso. Agora, pô, sei lá, mas às vezes me volta sempre isso! Tem alguns que têm que ensaiar, que não tem jeito! Os caras não sabem falar no microfone. É complicado, você nem ouve o que o cara falou. Acho que o cara deveria até se policiar um pouco mais, né? Mas é por causa disso. O que eu escrevo é para ser lido, claro! Mas eu tenho a manha de chegar lá e PUM! Botar a mensagem, porque eu vou botar mensagem, não tem jeito! Tipo, eu sou multimídia. Porra, vamos musicar? Vamos musicar! Você quer fazer um vídeo? Vamos! Eu já penso nisso, entendeu? Eu já tenho essa parada. Agora, er... eu não posso cobrar que todo mundo tenha isso, também não posso cobrar que o cara, porra, às vezes o cara vai ler o poema dele, às vezes o cara vai cantar um samba – eu fui numa roda de samba recentemente -, e eu falei pro cara: “Porra, cara! É teu o samba? Pô, eu não cantaria assim não!” Então você já acentuou que o sentimento é uma coisa que você pontua, né? É complicado, é como... a gente está aqui gravando, é difícil, né? Você sabe mais do que ninguém que uma coisa é falar, outra coisa é escrever. Eu por exemplo posso ser muito coeso e sensato escrevendo, mas posso ser totalmente uma pessoa doidivanas falando. (risos) Eu posso até falar coisas que não têm o mínimo nexo. A não ser o que se passa muito da disposição do outro em escutar. E o poema é sempre assim, porque o poema é um diálogo. Tem poemas e poetas que eu porra, me faz... você é um dos caras que eu gosto pra caralho! Você tem escrito cada vez melhor!


Aldeia Rock Festival, abril de 2009.

Bah!

- Você eu admiro! E tem outros caras que eu admiro também, por exemplo, tem o Laurent [Gabriel] da nova geração, tem o pessoal dos Infames, do grupo do Xisto [da Cunha], fazem várias coisas diferentes. E o Rod Britto, sozinho nem tanto. Porque eu não li muito do Rod. Dos outros eu tive chance de ler o zine deles. Pô, eles esculacham! E o Guila [Sarmento]! O Guila, pô, é espetacular! O cara tem o domínio de apresentar a sua poesia, curta e intensa. Excelente! Outro exemplo é o Wellington [de Sousa]. Wellington às vezes eu fico bolado que ele apresenta assim, meio desleixado. Mas lendo ele, pô, eu gosto! Eu gosto muito da Tatiana [Ronconi]. A Tatiana tem vários momentos que porra, me surpreendem. E o próprio Tolissano, er...o Antonio Tolissano, mas eu gosto, assim... tem coisas que não dá para digerir! E lá dá muito isso, assim! Tem boas surpresas, tem coisas que até são fora da Taverna. O legal da Taverna, cinco anos, vai para seis anos - ninguém vai acreditar na gente – é que me despertou para muita gente nova.

Tem muita gente que hoje recita na Taverna e que quando a Taverna começou ainda era criança!

- É, verdade. Tem um pessoal que tinha catorze anos na época, imagina! Isso é uma coisa que pára num certo orgulho de estar junto com a galera, assim.

Estamos é envelhecendo!

- Pois é. Tem muita gente que fala o seguinte sobre a Taverna, que acabou indo para um caminho que não capitalizou. Eu mesmo falei com o Rodrigo: “Pô, Rodrigo! Tem que botar um lance profi, sei lá, pra fechar com o SESC e tal...” Mas eu acho, assim, tudo tem o seu tempo, né, cara? As pessoas vão se agregando ao movimento e não é à toa que vocês hoje colocam na Taverna muito mais gente que em qualquer outro evento de poesia gratuito no Rio de Janeiro. Eu não posso falar fora do estado do Rio de Janeiro, assim, mas fora da cidade, esse núcleo... Mas em São Gonçalo!

Existem eventos na Zona Sul do Rio que enchem.

- Então, existem eventos que eu sei, os eventos que têm lá na Letras & Expressões que eu estou doido para ir. Tem eventos eu sei, mas com um outro público. Um público diferente, é outra coisa, cara. Ali não, ali você encontra o cara que às vezes vai com o filho, vai velhinho e tal, e no final das contas, cara, o que o cara quer? O cara quer ficar falando para um monte de caras que escrevem também, “Ah, também escrevo!” Daí fica, porra, meio que competindo. Aquela competição de ego e coisa e tal... Ou você quer, pô, chegar para um maluco assim, do nada, como é num show de Rock ou de Heavy Metal, ou de qualquer outra coisa do mundo, ou porra, num vernisage de pintura, e o cara chegar: “Caraca, mermão! Adorei o que você fez!” E o cara que não tem nada a ver com aquilo. Pô, pra mim tem muito mais valor assim, porque ressoou fora daquele ambiente. Eu acho que essa é a parada diferenciada que a Taverna oferece em relação a qualquer outro evento que você tenha. Lá perto das Letras & Expressões, pô, eu já fui lá no Ubaldo, compus inclusive alguns poemas, tive um poema censurado né, que tem o singelo nome de Boceta. Que nunca me deixam declamar... [ele declamou nessa última Taverna]

O poema Boceta Linda?

- Isso, o Boceta Linda! O poema é maravilhoso, todo mundo quer que eu leia esse poema e só recitei na edição do No Uma Noite na Taverna sobre o Bocage. Era porque é a única homenagem que eu posso fazer... “Eu a vejo desnuda / Isenta de penugem / Tingida de vermelho / Vou vasculhar a fundo / Vou sorver o grito / Vou lamber o grelo...” (risos) Isso é maravilhoso! Isso é poético! Mas é aquela coisa... Noites de Ubaldo, né! Como é que é...”Findas noites / findos maços de cigarros e...” E aí eu falo um monte de palavrão, um monte de sacanagem. Eu ficava lá bebendo, enchendo os cornos no Ubaldo, mas o porquê eu ia no Ubaldo? No Ubaldo eu ia encontrar a galera que pô, o pessoal é... a galera vive disso, o cara vive de escrever... O Ubaldo é perto da Livraria Letras & Expressões, lá tem o Bar do Ubaldo... isso é uma coisa que me facilitou muito também, porque lá eu conheci muita gente. O CEP 20.000, por exemplo. Antes de ter Taverna já tinha o CEP 20.000...

Com Rodrigo Santos e Romulo Narducci na Bienal do Livro, no RioCentro (setembro de 2009).

Muito tempo antes, inclusive!

- É. E antes de ter o CEP 20.000, tinha a noite de poesia do... do... esqueci o nome... era lá na Gávea! Tinha um encontro com o Chacal, lá! Aí depois chegou o Zarvos e fizeram o CEP 20.000. Nessa época eu já curtia poesia e curtia também estar no meio dessa galera. Só que sempre foi isso, sempre foi clube de artista. E aquilo me deixava meio nervoso já! Quando começou a migrar para a Faixa, o CEP 20.000, aí é que foi o BOOM do negócio. Que quando, pô... depois começou a ter vários eventos na Lapa, eu já subi para declamar inclusive alguns poemas, o meu poema “O Lutador”... na Faixa, devidamente embriagado, é claro... Mas subi lá e encarei aquela galera inteira. Depois foi pro Sérgio Porto e agora ficou vazio! Começou por muito tempo cheio, depois foi esvaziando porque a galera ia beber na Lapa e ouvir pagodinho e bunda music. É isso que eu falo! Porque ali, a parada não era aquele... não tinha aquele palco aberto, que é bem tipo a Taverna, tipo... pô, eu vou chamar a galera e mostrar os poetas de São Gonçalo! Aquilo virou bem um clube, sempre eram as mesmas pessoas que estavam declamando. Aí, foram fazer palco livre que era maneiro, era uma coisa meio que... nego sacaneava, me lembro do Joe. Joe era uma figura que deve ter morrido, sei lá! Era um maluco clássico do Rio de Janeiro. O Joe ficava vagando pela Praia Vermelha e Lapa e tal e... doidão pra caramba! Ele era maneiro porque ele ficava... ele andava com o pessoal de psicologia e tal, recitava textos de Nietsche e não sei o quê, contextualizava tudo daquele jeito louco dele e teorizava durante duas horas sobre coisas sem sentido. Mas pô, quando o cara subia no palco, o cara dava uma bosta pro Joe! Falava assim: “Pô, cara! Você está descontextualizando o negócio!” Palco livre virou bagunça também! Não tinha um tema, não tinha nada! Era assim, um desfile de ego, né? Mas, pô, teve o seu valor também! Eu estou falando isso porque sei lá, ganhei uma certa... faz parte do passado e eu estou com essa visão hoje daquilo lá. Pode ser que amanhã eu olhe com olhos, né? “Pô, aquilo foi lindo, foi maravilhoso! Mas podia ter sido melhor aproveitado, tanto que poderia ter CEP 20.000 até hoje!

Mas tem!

- Tem?

O CEP 20.000 já fez 14 ou 15 anos de existência!

- É, mas...

E ainda acontece no Teatro Sérgio Porto!

- Eu estive até há pouco tempo lá no Sérgio Porto no show do Farofa... Tá, para me redimir eu acho que vou fazer então uma visita a eles, só para ver como está o negócio.

O Guilherme Zarvos acho que saiu, parou de fazer. Mas o Chacal continua.

- Que o Guilherme saiu, isso eu sei... pensei que tivesse parado. Eu gosto muito do Chacal!

Eu gosto dos dois...

- Ah, eu gosto é do Chacal!

Eu acho o Guilherme uma figura emblemática. Um pouco difícil de lidar, mas é emblemático, até.

- O Guilherme, ele quer ser pop star, ele é foda! Aí, eu fico meio bolado com isso. Quer aparecer a qualquer custo, é foda! Mas deve ser leonino igual a mim! (risos)


Recitando no Aldeia Rock Festival X (abril de 2010).

Tá explicado! (risos)

O leonino quer muito dizer o que o outro deve fazer e tal, mas... afinal de contas quer todo mundo aparecer, né? O cara sente que “o cara é mais leonino do que eu”, sei lá! Acho que pô, eu tenho até essa coisa, minha mulher é leonina, vários amigos meus são todos leoninos...

Pois é, e para a próxima Taverna [que aconteceu no dia 14 de agosto de 2009], o que você está preparando?

- Eu estou preparando alguns poemas novos mesmo, inéditos. Tem mais ou menos uns três poemas inéditos. Um deles até embarca no território do... de construção que eu vi você recentemente até usar, que a gente vê mais comumente no.. num dos grandes expoentes aí, um cara que eu já conhecia antes da Taverna, que é o meu amigo Laurent. E alguns poemas que foram escritos nessa fase mais recente, publicados no meu blog de forma... eu estou até organizando o blog por assuntos, né? Coloco lá o “Bilhete do Descontente”, que é uma coisa que eu até tenho de política, algumas coisas que eu escrevia. Algumas coisas que eu vi na mídia, mais alguns poemas que eu escrevi mesmo, que estão no blog, desse período todo, para pegar uma retomada desses anos de Taverna. Fora isso tem os três poemas inéditos aí, quentinhos do forno que estão esperando para serem burilados e descobertos. Porque, como Drummond falava, a gente até tinha trocado essa idéia, de colocar aquele poema descoberto pelo poema, né? Que está no “A Rosa do Povo”. O poema já está lá, pronto e a gente vai ter que se defrontar com ele, se defrontar com a pergunta crucial que ele faz com a gente que é “trouxeste a chave?” E abrir o poema e entrar nele e apresentá-lo. E falando de Taverna, eu sinto falta de várias pessoas que já passaram pela Taverna, eu sinto a maior saudade... Pô, o Guila, o pessoal dos Infames, que alguns hoje estão na Sala do Sino, um trabalho espetacular! A própria Tatiana, eu tenho saudades das risadas que a gente dava no próprio evento. Er... tudo que rolou nesse período e as pessoas foram se agregando e a gente já teve, não só nas poesias, mas nas apresentações mesmo de esquetes teatrais... tem acontecido uma grande sacada, uma galera que colou com agente e tal, recentemente a gente teve nessa apresentação à França, vejo que tem uma galera do teatro que está com agente e isso é, pô... isso me dá o maior prazer porque além de tudo, de saber que a Taverna não tem dono, foi feita para congrassar. Agente até estava trocando uma idéia antes, dessa coisa da Taverna estar sendo feita de um modelo diferente. Ela saiu daquela coisa do clube de amigos com o intuito de apresentar a poesia. Aí cria no início um certo tipo de estranheza, porque as pessoas vão despreparadas até para ler. Algumas é porque é a primeira vez que estão falando, mas é porque ali é um espaço onde as pessoas estão apresentando o seu trabalho e é muito mais gratificante, eu acho... como num show de Rock, ou como numa vernisage de pintura, é praticamente apresentar! É de chegar alguém e falar: “Cara, eu me identifiquei com você!” Porque você está no meio de uma roda de gente que está fazendo a mesma coisa, tipo uma roda de amigos que estão escrevendo, é legal? É legal! Mas o mais maneiro é alguém que não faz parte daquilo ali, chegar pra você e falar assim: “Pô, cara, você me tocou! Porra, gostei muito do que você falou!” Às vezes alguém achou uma porcaria, mas que as pessoas achem as coisas! É um público diferenciado. Porquê? Porque fazer poesia em São Gonçalo, sinceramente cara, isso não tem preço! Quando São Gonçalo virar uma megalópole, ou ela estiver flutuando... (risos) O cara vai falar assim: “É, todo mundo foi alfabetizado!” E o pessoal vai lembrar assim: “Caraca, eu vou pegar aqui um VHS da Taverna que aconteceu isso aqui...” Pô, eu acho legal a coisa do sentimento e o sentimento é não deixar morrer! Não deixar morrer o cara que está preso em casa, vivendo a sua vidinha cercado pela bunda music, que não consegue sintonizar uma música que ele goste no dial, não consegue ver o livro que ele gosta como um dos mais vendidos, er... se falam de Florbela Espanca, ele pensa que espancaram alguém, e o cara: “Quem espanca quem?” E lá ele vê, “Pô, você não está sozinho, tem gente que lê essa porra! Tem gente que compõe poemas inspirados nisso!” E aí vai ver, esse cara mora em São Gonçalo, e não é Cidinho Doca, porra! O cara mora em São Gonçalo e faz sonetos decassílabos clássicos! Fala de RPG e mora em São Gonçalo! Cara, tem gente em São Gonçalo que faz poesia! É a coisa que tira o cara do suicídio, adia o final cut, eu estava ouvindo até o “Final Cut” do Pink Floyd, que é um dos discos que eu mais gosto. Mas, cara, você poder ressoar, aí você sorri. E sorrir não tem jeito, até quando você está triste e faz um poema depressivo sobre suicídio e tal, e você escreveu e o cara sentiu a mesma coisa que você, caraca, teve a catarse! Você já pode adiar alguns dias aquela parada de fazer outro poema e voltar pra vida! Ter suas decepções, mas nunca deixar de voltar. É isso, aí!


No aniversário de 6 anos da Taverna, janeiro de 2010, SESC São Gonçalo.

E pro pessoal da Taverna, o que você deixa de recado, para quem vai lá no dia 14? [o evento aconteceu em 14/08/2009]

- Cara, assim, utilizar bastante esse espaço buscando o que não conhece, as referências que são citadas. Pô, a Taverna tem um projeto legal que desde o início é o de homenagear sempre um poeta. O objetivo ali não é de ficar declamando somente aquele poeta, nem nada. É de despertar as pessoas para aquele sentimento que aquele poeta passou. Isso é uma coisa importante, da referência, que vai te dar muito mais chão... Que nunca deixem de buscar, que nunca deixem de expressar, buscar seu sonho, ver que é possível, a Taverna é um resultado disso e é mais gostoso porque é coletivo, que a poesia é um exercício solitário mas que tem esse seu lado... Se você quiser guardar na gaveta, beleza! Mas a poesia tem o seu papel de liberdade, tem o seu papel de terapia, tem o seu papel de ferramenta revolucionária, de diversão, de música, ela está presente, porra, no texto literário mais complicado. Cita desde Newton a coisas de que você nunca ouviu falar, como também está na coisa direta do Bandeira de falar da tua dor de dente, da tua dor de barriga... A palavra está escondia em tudo quanto é lugar! Essa é que é a beleza dela. Ela não está ali à toa para você pegar e fazer o que quiser, ela te pede mais. Quando você conhece os mestres, conhece quem já fez, então busca até falar o que você vai falar para os outros. Você vê que a mensagem, ela é muito mais responsável. Tanto que você se sente responsável, você pega a dimensão das coisas e transforma essa coisa numa coisa maior. Uma coisa que fica cravada na pedra, né? Você não escreve mais com tuas palavras, você já deixa elas gravadas numa pedra que vai ficar sempre no coração de quem ouvir e vai ressoar de inúmeras formas. Pode ser que você esteja escrevendo ali para falar para duzentas mil pessoas, como pode ser que você esteja escrevendo num anel de ouro ou de diamante quando você estiver falando para um grupo de cem pessoas ali na Taverna. Isso vai depender do dia, da hora e tal, mas isso não interessa, o que interessa é o sonho de poder estar comunicando a sua mensagem para quem quiser ouvir.

Muito bom! Evoé, Pakkatto!

- Evoé!

Mais uma vez, obrigado cara! E que tudo isso que foi proferido seja guardado pela eternidade!

- Exatamente, vamos ver se a edição vai ser boa como os seus poemas. (risos)


Com o poeta e músico Rodrigo Vieira, em frente ao Bar Mr. Jack, em São Gonçalo.

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